O Esquecimento do Ser mencionado por Heidegger. E na Astronomia o Esquecimento do Céu

A tarefa declarada de Ser e Tempo é a de determinar o sentido do ser, Heidegger diz que este ser foi esquecido; o mundo ocidental o esqueceu.  Mas Heidegger conforme nos lembra Reale e Antiseri (2006, p.208) se vê em aporia, pois “a análise do ser-aí, isto é daquele ente privilegiado que se propõe a pergunta sobre o sentido do  ser, não revela o sentido do ser e sim o nada da existência”.

Heidegger nos diz que o mundo ocidental desde Platão degrada com o Ser, e isto vai se passando de geração em geração com todos os filósofos que vieram depois. Os primeiros filósofos como: Anaximandro, Parmênides e Heráclito conceberam a verdade como um desvelar-se do Ser como provaria o sentido etimológico de alétheia (desvelamento). Heidegger comenta a questão do “Mundo das Idéias de Platão” e o exemplo da “Alegoria da caverna” para justificar seu posicionamento.

Em “A questão da Técnica” (1953) ele critica a sociedade industrial (uma das causadoras da modernidade) onde predomina a ciência. E questiona estes valores e princípios modernos. Como transcreve Marcondes:

“A ciência não pensa.” A ciência e sua aplicação técnica seriam incapazes de pensar o ser, de pensá-lo fora da problemática do conhecimento e da consideração instrumental e operacional da realidade típicos do mundo técnico. Na verdade, o desenvolvimento de nosso modelo técnico e industrial é conseqüência precisamente do “esquecimento do ser” na trajetória da cultura ocidental. (2005, p.267).

Em suma podemos dizer que Heidegger se preocupa com a questão do Ser, ou melhor, em retomá-la de uma maneira que ele julgava própria e não mais como fora tomada impropriamente. Segundo Heidegger, o que o mundo ocidental fez foi esquecer o Ser…  e a fenomenologia seria essa  re-busca do Ser.

Continuaremos agora no próximo tópico analisando outro esquecimento: nossa origem cósmica, ou seja, passamos do esquecimento do ser para o esquecimento do Céu.

A  Astronomia e o esquecimento do Céu

Em nossos dias, da mesma forma que é mais “fácil” estar aí jogado esquecendo o ser e se ocupando em várias atividades e coisas do dia a dia como: trabalho, assistindo à televisão, indo ao cinema, teatro, “baladas” e outras tantas e diversas atividades; da mesma maneira se esquece o Céu, se esquece o universo, se ocupando com tantas “atividades noturnas”. Assim perdemos o sentido de nossa origem. Conforme comenta Brockelman:

O que perdemos, portanto, foi a habilidade de ver nossa vida como parte de uma ordem e uma realidade mais amplas, para além de nossos transitórios desejos e sonhos diários. Ao ver a natureza e todo o universo como uma “matéria” posta aqui para nossa transformação e uso infinitamente produtivos, reduzimos a realidade a um mero valor extrínseco para nós; ela não é mais vivenciada como intrinsecamente valiosa em si. Por conseqüência, perdemos todo senso de pertencer a um drama e a uma realidade mais vastos e significativos. (2001, p.23)

Ocorre uma perda, um esquecimento desta nossa origem cósmica. Uma das maneiras que teríamos para nos aproximar um pouco dela seria o estudo da nova cosmologia, conforme diz  Brockelman,  há

(…) uma realidade além de nós e que, entretanto,  nos inclui. A cosmologia permite um vislumbre dessa realidade mais ampla ao mostrar que a natureza é o resultado de um mistério originador ou do que Vaclav Havel chama o “milagre do Ser” que brilha através dela. (2001, p.82).

Mas hoje em dia é difícil encontrar uma pessoa que se envolva com a astronomia, eu digo envolva no sentido mais profundo da palavra, no sentido mesmo de submergir. Isto se dá,  por três motivos principais: 1) as pessoas buscam normalmente se envolver com coisas que não as façam  pensar muito (querem o lazer simples e despreocupado);  2) muitas vezes buscam algo que possa trazer retorno financeiro e não vêem na astronomia algo com esta possibilidade (principalmente no Brasil);  3) com tanta poluição luminosa em nossas cidades é praticamente impossível se observar o Céu. (isto só ocorre quando viajamos para cidades distantes das grandes metrópoles).

E é neste terceiro ponto que gostaríamos de nos ater. Heidegger menciona o esquecimento do Ser através do tempo no mundo ocidental, como já comentamos anteriormente.  Mas gostaria de evidenciar: nós esquecemos o Ser, porque nos ocupamos demais com tantas e tantas atividades provindas da técnica; nós esquecemos o cosmos, o universo, o Céu porque desenvolvemos uma técnica que da mesma forma e paradoxalmente que nos aprofundou nos confins do universo, “desenvolve” no planeta e na atmosfera da Terra, tanta e tanta poluição de todos os níveis que não nos permitem “ver” a noite, aqui destacamos a poluição luminosa.

Nós somos morcegos que erroneamente iluminamos o nosso Céu e assim na verdade o “apagamos”, o ofuscamos.  Nós precisávamos do Céu para nossa “busca noturna”, mas com tanta luz perdemos esta possibilidade e com isso veio a “fome” e o esquecimento do cosmos, nossa origem.

Como supomos hoje através dos conhecimentos em astronomia, foi através de “mortes” e ressurgimentos de algumas estrelas: “poeiras” que formam estrelas que ao “morrer” tornam-se novamente poeiras encontrando-se com outras (“poeiras”) que com elementos químicos cada vez mais complexos formam novas estrelas. Portanto o nosso Sol e todo o sistema solar e Tudo o que nele existe, assim fora formado. Em outras palavras nós somos “poeira das estrelas”, e dessa maneira não há dúvidas que nossa origem é cósmica, nós viemos deste vasto, imenso, infinito ou finito universo, que tem aproximadamente 13,7 bilhões de anos desde o chamado Big Bang. E da mesma forma que é espantoso, que é um verdadeiro thauma relatar mitos da criação através da mitologia ou das diversas crenças  religiosas, é da mesma maneira um verdadeiro espanto os relatos da nova cosmologia, conforme diz Dennis Overbye apud Brockelman:

O que poderia aproximar mais do caráter de mito do que a noção de que o universo de fato apareceu, talvez do nada; de que os átomos em nossos ossos e sangue foram formados em estrelas a anos-luz de distância e bilhões de anos atrás; ou de que as partículas ainda mais antigas de que são compostos esses átomos são fósseis de energias e forças que existiram durante o primeiro microssegundo da criação, as quais mal podemos compreender? Somos todos artefatos do universo, lembranças andantes do mistério último. Somos poeiras andantes, poeiras de estrelas andantes. (2001, p.93).

Mas o nosso questionamento é: se nós nos esquecemos do sentido do Ser, será que nós nos preocuparemos com esta nossa origem? Cito novamente na íntegra o trecho do Kant mencionado por Châtelet, pois me parece profundamente relevante para esta monografia;  Kant diz

Duas coisas enchem o coração de admiração e veneração, sempre novas e sempre crescentes, à medida que a reflexão se dirige e se consagra a elas: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim (…) o primeiro espetáculo, de uma inumerável multidão de  mundos, aniquila, por assim dizer a minha importância, por ser eu uma criatura animal que deve voltar à matéria de que é formado o planeta (um simples ponto no Universo) depois de (não se sabe como) ter sido dotada de força vital durante curto espaço de tempo. O segundo espetáculo ao contrário eleva infinitamente o meu valor, como o de uma inteligência por minha personalidade, na qual a lei moral me manifesta uma vida independente da animalidade e até mesmo de todo o mundo sensível. (1994, p.102).

Este deslumbramento já ocorre há tempos imemoriáveis. Poderíamos citar os diversos povos do oriente que se fascinavam  muito com o cosmos: os chineses, babilônios, assírios e egípcios; e também povos aqui das Américas como: os   Maias, os Incas e mesmo nossos índios e outros povos chamados “primitivos”; que já se preocupavam e se ocupavam com a observação do Céu, mas vieram os nossos dias e novas ocupações surgiram, a técnica faz com que possamos nos aprofundar no mais distante do cosmos e ao mesmo tempo faz o povo esquecer deste Céu…

No Próximo Tópico: Considerações  Finais

Abraços do Benito Pepe

Benito Pepe

Benito Pepe: Empresário há mais de 30 anos, Administrador, Filósofo, Astrônomo Amador, Colunista, Palestrante, Instrutor e Professor Universitário. Tem formação acadêmica na área de Administração com pós-graduações em: Administração estratégica de empresas; Marketing; Filosofia Contemporânea; e Filosofia Antiga. Publica Aqui, seus textos sobre Filosofia, Astronomia, Administração, Marketing, Religião, Assuntos da Atualidade, além de um Papo geral.

3 comentários em “O Esquecimento do Ser mencionado por Heidegger. E na Astronomia o Esquecimento do Céu

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    Olá meu querido amigo Benito,! Neste tema vamos partir de um principio, a nossa mente, ou seja a mente humana é igual a uma cidade, em nossos arquivos mentais estão arquivados assuntos que se equivalem a vários setores urbanos, como zona sul, centro, e periferia. Quando se abrem as janelas da nossa mente, imediatamente é disparado o gatilho dos nossos pensamentos, que voam talvez mais rápido que a velocidade da luz, e assim mergulhamos imediatamente em fatos passados a décadas através do túnel imaginário do tempo. Um ente querido que deixou de existir, é um SER que passou para ser cumprido o que determina a lei natural das coisas, ou seja voltar ao que era antes. Quanto ao nosso céu: antigamente quando as ruas eram iluminadas pelas luzes toscas dos lampiões, e principalmente nas noites escuras sem luar, dava-se mais valor a natureza, pois contemplar o nosso firmamento com bilhões de luzes cintilantes sobre nossas cabeças, sem sabermos a origem daquela força a bilhões de anos luz de distancia, era difícil de entender para muitos, que aquelas aparentes pequeninas luzes fossem fosseis de energia de átomos criados por uma explosão universal, não tinha como esquecermos aquele céu brilhante. Porem como contra a força do progresso jamais poderá haver retrocesso,,fica bem mais difícil o mundo se lembrar de um ser que ficou para traz, a não ser que ele esteja presente dentro de um dos setores urbanos da nossa mente. O sujeito ás vezes com os carnavais da vida, baladas, e todos os afazeres desta vida agitada que levamos, e com as janelas do nosso pensamento fechadas para as mais diversas preocupações, o Ser, o Céu e a própria Astronomia, ( a não ser quando a pessoa dedica-se a este estudo) é praticamente um passado de esquecimento para o individuo; mesmo porque, ele não dispõe de tempo para pensar naquilo que passou, e faz nos esquecermos deste céu azul e maravilhoso, que nos proporciona o nosso infinito azulado. Só não posso esquecer de te mandar um abraço, do amigo J.M.Dias

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    Valeu meu camarada e poeta JM Dias heheh! Bem, esse comentário só precisa de umas pequenas observações, confirmações e refutações numéricas…. Vamos lá….

    Quanto à velocidade do pensamento eu concordo com você é isso mesmo! O pensamento é a maior velocidade que podemos imaginar. Por exemplo, quando você observa uma galáxia como Andrômeda que está a 2,2 milhões de anos luz de Distância, você poderia se imaginar lá em segundos, no entanto pra chegar até ela, ainda que na velocidade da luz seria mesmo impossível, você não vive esse tempo (2 milhões de anos, deve ser o tempo em que surgiu o embrião da humanidade).

    Quanto às luzes sobre as nossos cabeças em uma noite extrema, você usou certamente uma força de expressão, pois o máximo de luzes ou estrelas que poderíamos observar a olho nu, não chega a umas 10.000 unidades, mas você está certo, “ali em cima” há bilhões, ou mesmo trilhões de estrelas, mas estão invisíveis a olho nu e mesmo para os mais modernos aparelhos. Só a nossa galáxia deve ter algo como 200 bilhões de estrelas, mas agente só vê um pedacinho dela… Quanto ao objeto visto a olho nu mais distante da gente é a própria Galáxia de Andrômeda que agente consegue vê-la como uma pequenina nuvem tênue, mas ela é quase o dobro da nossa galáxia e é a Galáxia mais próxima da gente…

    Isso fica só pra colaborar com mais reflexões.

    Abraços do Benito Pepe

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