Heidegger e os Gregos: o Ser e o Céu antes e hoje

Neste capítulo vamos sucintamente esclarecer os termos e as definições de fenômeno e fenomenologia através de alguns autores desta corrente filosófica, como Husserl e principalmente Martin Heidegger; e fazer uma analogia entre o esquecimento do Ser tratado por Heidegger no seu livro: Ser e Tempo(11) e a Astronomia, ou melhor, o esquecimento ou desconhecimento desta nossa origem Cósmica. Ao falarmos de fenomenologia não poderíamos deixar de citar Edmund Husserl que foi o mestre de Heidegger  e  para quem este dedica o seu livro Ser e Tempo.

Lembramos  a relação de Heidegger com os gregos antigos, especialmente os pré-socráticos, que em sua visão, viam uma outra manifestação quando se falava na questão do Ser e/ou da “possibilidade” do desvelamento (aletheia) ou da “ocultação” natural. Heidegger propõe uma releitura dos pré-socráticos de maneira diferente das que foram feitas pela tradição, isto é, Platão e Aristóteles entre outros posteriormente.

Na sequência final deste capítulo, quando falamos do Céu, pretendemos ampliar os sentidos para além de uma epifania (epiphaneia), e ver o Céu como nossa origem cósmica, fato distorcido no trascorrer do tempo.

Quanto à Filosofia, como dissemos,  precisamos lembrar que ela não era totalmente racionalista quando surge, este fato ocorre posteriormente e continua na contemporaneidade. A Filosofia contemporanea é conhecida como racionalista, mas antes  não era assim. Vemos por fim, através da nova cosmologia, uma possibilidade de “reviravolta” que poderia reativar o nosso pensamento à filosofia originária.

Como acreditamos que para esta “reviravolta” a Nova Cosmologia pode contribuir, dedicamos um tópico para falar da Astronomia e do esquecimento do Céu.

O esquecimento do Ser mencionado por Heidegger nos proporciona mostrar outro esquecimento análogo que é o esquecimento de nossa origem cósmica. Como sabemos a filosofia e o estudo do Ser ou ontologia, começa na Grécia antiga principalmente com os chamados pré-socráticos: aqueles autores que vieram antes de Sócrates, e que estão muitas vezes sendo retomados em nossa contemporaneidade.

A fenomenologia é uma das principais correntes filosóficas da contemporaneidade e, portanto deve estar em evidência em nossos estudos interdisciplinares. Tomaremos também sucintamente a questão da técnica tratada por Heidegger e os desdobramentos que esta “permite” e ao mesmo tempo “des-possibilita” o lembrar-se do Céu.

Os fenomenólogos reduziram, puseram entre parênteses, abstraíram os “fenômenos” a fim de chegar na “essência” do que pretendiam analisar. Analisavam um “fenômeno” onde viam “valor”. Portanto nós também de maneira análoga o faremos, buscando o fenômeno astronomia-cosmos e nossa origem daí esquecida.

O  Fenômeno

Se procurarmos a definição de fenômeno no dicionário Aurélio teremos que fenômeno é: “Tudo quanto é percebido pelos sentidos ou pela consciência; tudo o que se observa de extraordinário no ar ou no céu”. Bem, esta é uma definição bem abarcante, mas o que gostaríamos de salientar é o termo “o que se observa de extraordinário no ar ou no céu”, ou seja, aquilo que não é ordinário; fora do comum.

Como este é um trabalho de filosofia é imprescindível buscarmos as definições em dicionários de filosofia, portanto Abbagnano diz inicialmente que fenômeno é:

O mesmo que aparência. Nesse sentido o fenômeno  é a aparência sensível que se contrapõe à realidade, podendo ser considerado manifestação desta, ou que se contrapõe ao fato, do qual pode ser considerado idêntico. (2007, p.510).

De qualquer maneira estes são termos assumidos na linguagem comum, vejamos agora como se trata fenômeno a partir do século XVIII.

(…) a palavra fenômeno começa a designar o objeto específico do conhecimento humano que aparece em condições particulares, características da estrutura cognitiva do homem. Nesse sentido, a noção de fenômeno é correlativa com a de coisa em si, a ela remetendo por oposição contrária.  Abbagnano (op. cit.).

Naquele século se questionava a capacidade do homem conhecer, ou melhor, a limitação do conhecimento humano, e foi desta convicção, como nos relembra Abbagnano que Kant diz:

Fenômeno é o que não pertence ao objeto em si mesmo, mas se encontra sempre na relação entre ele e o sujeito, sendo inseparável da representação que este tem dele. Por isto mesmo os predicados do espaço e do tempo são atribuídos aos objetos dos sentidos como tais, e nisso não há ilusão. Ao contrário, se atribui à rosa em si a cor vermelha, a Saturno os anéis ou a todos os objetos extremos em si a extensão, sem levar em conta a relação desses objetos com o sujeito e sem limitar meu juízo a essa relação, então nasce a ilusão. (2007, p.510).

Portanto neste sentido, fenômeno não é o objeto que se manifesta, mas o objeto que “aparece” ao homem como tal com suas limitações entendidas nessa época.

Tratando destes termos na contemporaneidade precisamos buscar o que disse Husserl  a partir de suas Investigações Lógicas, como comenta Abbagnano:

Fenômeno começou a indicar não só o que aparece ou se manifesta ao homem em condições particulares, mas aquilo que aparece ou se manifesta em si mesmo, como é em si, na sua essência. É verdade que para Husserl o fenômeno neste sentido não é uma manifestação natural ou espontânea da coisa: exige outras condições, que são impostas pela investigação filosófica como fenomenologia. O sentido fenomenológico de fenômeno como revelação de essência. (2007, p.511).

Visto isto podemos comentar Heidegger que considera o fenômeno como o aparecer puro e simples do ser em si e o distingue assim da simples aparência que é indício do ser ou alusão ao ser (que, contudo permanece escondido) e que, por isso, é o não manifestar-se  ou o esconder-se do ser.  Heidegger (Ser e Tempo).

Em suma Abbagnano resume os sentidos ou significados da palavra fenômeno atualmente em uso da seguinte forma:

1) aparência pura e simples (ou fato puro e simples), considerada ou não como manifestação da realidade ou fato real;  2) objeto do conhecimento humano, qualificado e delimitado pela relação com o homem; 3) revelação do objeto em si. (2007, p.511).

Depois destas considerações inicias podemos passar para o termo fenomenologia e entendermos melhor a abrangência que o mesmo toma em nossa contemporaneidade.

A  Fenomenologia

Há diversas noções para o termo fenomenologia,  ele surge no século XVIII e foi usado por diversos autores, mas de maneira bem diferente da contemporaneidade. Kant por exemplo o utiliza para denotar a descrição da consciência e da experiência, abstraindo de considerações sobre seu conteúdo intencional. Hegel por outro lado, conforme comenta Japiassú:

Emprega o termo em sua Fenomenologia do espírito (1807) para designar o que denomina de “ciência da experiência da consciência”, ou seja, o exame do processo dialético de constituição da consciência desde seu nível mais básico, o sensível, até as formas mais elaboradas da consciência de si, que levariam finalmente à apreensão do absoluto. (2006, p.105).

Ou seja, em Hegel a fenomenologia é a investigação histórica da evolução da autoconsciência, que se desenvolve a partir da experiência sensorial elementar, até alcançar  processos de pensamento completamente racionais e livres, capazes de engendrar conhecimento. Isto poderia também ser elucidado com suas palavras quando diz “o devir da ciência ou do saber”.

Umas das noções do termo fenomenologia que hoje vive é a anunciada por Husserl em Investigações Lógicas, já no século XX, e desenvolvida por ele em obras seguintes.  Husserl visa estabelecer um método de fundamentação da ciência e de constituição da filosofia como ciência rigorosa. O projeto fenomenológico se define como uma “volta às coisas mesmas” isto é aos fenômenos, aquilo que aparece à consciência, que se dá como seu objeto intencional. “Toda consciência é consciência de alguma coisa” (Husserl).

Conforme comenta Blackburn

(…) Husserl percebeu que a intencionalidade era a marca da consciência, e viu nela um conceito suscetível de ultrapassar o dualismo tradicional da mente-corpo.  (…) Apesar da rejeição do dualismo por Husserl, sua crença na existência de algo que permanece depois da epochê, ou suspensão dos conteúdos da experiência, o associa à prioridade às experiências elementares da doutrina do fenomenismo, e a fenomenologia acabou por sofrer, em parte, com a superação dessa abordagem aos problemas da experiência e da realidade. Contudo, fenomenólogos mais recentes, como Merleau-Ponty, fazem plena justiça à natureza mundo-envolvente da experiência. (1997, p.146).

Husserl faz uma distinção entre psicologia e fenomenologia deixando claro que a psicologia trabalha com sujeitos e fenômenos enquanto acontecimentos reais no mundo espacio-temporal e que, ao contrário a fenomenologia,  conforme diz Abbagnano

(…) que ele chama de “pura” ou “transcendental” é uma ciência de essências (portanto “eidética”) e não de dados de fato, possibilitada apenas pela redução eidética, cuja tarefa é expurgar os fenômenos psicológicos de suas características reais ou empíricas e levá-los para o plano da generalidade essencial. A redução eidética, vale dizer, a transformação dos fenômenos em sentido estrito, porque transforma esses fenômenos em irrealidades. (…) valendo-se da redução fenomenológica e da epochê. (2007, p.511).

Em resumo, Husserl chega aos seguintes resultados: 1) O reconhecimento do caráter intencional da consciência; 2) evidência da visão (intuição) do objeto devido à presença efetiva do objeto; 3) generalização da noção de objeto que compreende não só as coisas materiais, mas também as formas de categorias, as essências e os “objetos ideais” em geral; 4) caráter privilegiado da “percepção imanente”, ou seja, da consciência que o eu tem das suas próprias experiências, porquanto nessa percepção “aparecer e ser coincidem perfeitamente”, ao passo que não coincidem na intuição do objeto externo, que nunca se identifica com suas aparições à consciência, mas permanece além delas.

A fenomenologia como dissemos é uma das principais correntes filosóficas do século XX com muita importância na Alemanha e na França; influencia fortemente o pensamento de Heidegger (como método para sua ontologia) desta maneira podemos entender fenomenologia como um conceito de método. Segundo Heidegger

A expressão “fenomenologia” significa, antes de tudo, um conceito de método (…) A palavra “fenomenologia” exprime uma máxima que se pode formular na expressão: “para as coisas elas mesmas!”  (…) No entanto, como se mostrou nas considerações precedentes, o que, num sentido extraordinário, se mantém velado ou volta novamente a encobrirse ou ainda só se mostra “distorcido” não é este ou aquele ente, mas o ser dos entes. O ser pode-se encobrir tão profundamente que chega a ser esquecido, e a questão do ser e de seu sentido se ausentam. (…) A fenomenologia é a via de acesso e o modo de comprovação para se determinar o que deve constituir tema da ontologia. Ontologia é possível como fenomenologia. (2006, p. 66-75).

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(11)  Ser e tempo, foi escrito por Martin Heidegger em 1927 – vide Referências bibliográficas no final desta monografia.

Próximo tópico: O Esquecimento do Ser em Heidegger

Abraços, Benito Pepe


Benito Pepe

Benito Pepe: Empresário há mais de 30 anos, Administrador, Filósofo, Astrônomo Amador, Colunista, Palestrante, Instrutor e Professor Universitário. Tem formação acadêmica na área de Administração com pós-graduações em: Administração estratégica de empresas; Marketing; Filosofia Contemporânea; e Filosofia Antiga. Publica Aqui, seus textos sobre Filosofia, Astronomia, Administração, Marketing, Religião, Assuntos da Atualidade, além de um Papo geral.

3 comentários em “Heidegger e os Gregos: o Ser e o Céu antes e hoje

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