As influências da Astronomia e a quebra de paradigmas (continuação capítulo 3.3)

Continuando nosso texto que fala da relação e importância entre a Astronomia e a filosofia no espanto, no thauma.

Estávamos no centro do universo, Éramos os seres mais importantes do universo, todos os corpos celestes: o sol, a lua, os planetas, tudo girava em torno de nós e portanto não havia dúvidas, nós éramos mesmo os benditos do cosmos. Esta concepção como dissemos foi “quebrada”, invalidada com Copérnico e o heliocentrismo; desta forma nós passamos a saber que não estávamos no centro deste universo, mas que éramos mais um “corpo” aí junto com os outros girando entorno do sol …

Também é quebrada a hierarquia aristotélica que dizia que da terra à lua havia uma “natureza” e da lua para cima outra diversa. Havia uma parte superior e uma parte inferior. Em cima a natureza imutável, permanente; embaixo, a matéria mutável; acima a realidade supra lunar; abaixo a realidade sublunar. A lua marcava o limite entre esses espaços, o mundo supralunar seria constituído de matéria sutil, isto fazia com que se separassem duas ciências da realidade natural, a ciência do supralunar: a astronomia, e a ciência do sublunar: a física, como nos faz recordar Châtelet (1994, p.55).

Mas isso como dissemos foi “quebrado”, abandonado também. Aqui poderíamos lembrar de Tycho Brahe e Michael Maestlin que após a observação de um cometa em 1577 chegaram à conclusão que ele estava além da esfera lunar, o que violaria a concepção aristotélica que pregava a imutabilidade dos céus, a quintessência, e desta forma “quebrariam”, contestariam também as chamadas “esferas cristalinas” que girariam no céu carregando os planetas.

Tivemos então, a quebra de outro paradigma que dizia ser o céu imutável, nada poderia ocorrer além da órbita da lua, mas isso ocorreu… apareceu um cometa por lá; houve então outro questionamento: tudo pode mudar? Ainda que o acreditássemos de maneira diferente por tanto tempo?

Tínhamos também a idéia de perfeição através das órbitas circulares, hipótese que também é “quebrada”, refutada com Johannes Kepler que através de árduas observações: constata que na realidade o que ocorre são órbitas elípticas e não perfeitos círculos como se supunha.

Assim, depois de tantas “quebradeiras” a única coisa que não se quebrou foram as “esferas cristalinas” por que elas não existiam. Agora, depois de tantas reformulações, o que é que sobra para este ser? Émile Noel questiona François Châtelet: Qual é, então, a pergunta filosófica que Descartes faz? Châtelet responde:

…poderíamos dizer que até Descartes a filosofia fez esta pergunta: Que é o ser? Como ele é? Descartes pergunta: Que é o conhecimento? Isso equivale a validar o trabalho de Galileu, a mostrar em que condições gerais o trabalho de Galileu se torna inteligível. (1994, p.63).

“Portanto em que consiste o heliocentrismo?” Prossegue Châtelet, “consiste em dizer ao sujeito empírico que está aqui neste mundo: Você acha que o mundo é como você o vê. Mas vou lhe fazer uma proposta: vamos, em espírito, até o Sol, para observar o mundo a partir dali.” (1994, p.63) Châtelet continua concluindo que às vezes as coisas podem ser mais simples do que nós imaginamos, mas nós precisamos ver de outro ângulo. Nós precisamos sair de nosso casulo e irmos à busca do verdadeiro conhecimento.

Mas, Descartes diz que, pela perfeição divina, exige-se que o próprio Deus escreva em linguagem matemática que é a linguagem da racionalidade integral. Acreditava também que o homem tornar-se-ia senhor e possuidor da natureza. Châtelet diz “que esse domínio da natureza não era, talvez, nem tão possível nem tão bom quanto acreditávamos.” (1994, p.65). E isto se pôde observar com a “crise da modernidade.”

O processo de racionalismo modifica-se dos tempos gregos para a modernidade no que tange o seu jeito de ser, agora ele está mais pautado na matemática no que diz respeito às ciências naturais e especialmente na astronomia. Para Descartes até mesmo Deus é uma “evidência” da luz natural e não da luz sobrenatural. É a razão que demonstra a existência de Deus. Não é mais o Deus de Moisés, de Abraão e de Jacó.

Quanto a isto poderíamos citar Albert Einstein em 1936 quando diz: “Todos os que se envolvem na busca da ciência acabam se convencendo de que um espírito se manifesta nas leis do universo – um espírito muito superior ao do homem.” É claro que tanto Descartes como Einstein eram homens de fé, e de certa forma buscaram a confirmação de suas crenças de maneira similar e racional.

Voltando ao racionalismo no que tange ao conhecimento temos que mencionar Kant que vai questionar a metafísica e a critica enquanto razão metafísica. A razão, diz ele, tem apenas um uso teórico, cognitivo, o de se criticar a si mesma, ser capaz de fixar limites para si mesma. Em a Crítica da Razão Prática, trecho mencionado por Châtelet diz:

Duas coisas enchem o coração de admiração e veneração, sempre novas e sempre crescentes, à medida que a reflexão se dirige e se consagra a elas: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim (…) o primeiro espetáculo, de uma inumerável multidão de mundos, aniquila, por assim dizer a minha importância, por ser eu uma criatura animal que deve voltar à matéria de que é formado o planeta (um simples ponto no Universo) depois de (não se sabe como) ter sido dotada de força vital durante curto espaço de tempo. O segundo espetáculo ao contrário eleva infinitamente o meu valor, como o de uma inteligência por minha personalidade, na qual a lei moral me manifesta uma vida independente da animalidade e até mesmo de todo o mundo sensível. (1994, p.102).

Podemos observar que vários pensadores influíram no modo de pensar na modernidade e ajudaram a deslocar os posicionamentos do homem nesse mundo. Para Kant, por exemplo, só há conhecimento sob o horizonte de uma totalidade graças à qual a experiência pode ser pensada como sistema. Chega-se ao conhecimento dado pela razão ao debruçar-se sobre a natureza.
A “revolução copernicana” em filosofia, como diz Kant se dá quando: não é o sujeito que se orienta pelo objeto (o real), como quis a tradição, mas o objeto que é determinado pelo sujeito. Vide o prefácio à segunda edição da Crítica da Razão Pura (1787). Sujeito e Objeto são, portanto, para Kant termos relacionais.

A recolocação, o reposicionamento do homem ainda não acabou… nós agora neste momento sabemos que além de nosso pequenino planeta não estar no centro do sistema solar, a nossa estrela o Sol também não está nem mesmo no centro de nossa Galáxia, nos encontramos em um “cantinho” do braço de Órion há aproximadamente 27.000 anos luz de distância do centro da Galáxia. E sabemos também que nem mesmo nossa galáxia é centro de alguma coisa, nem sabemos se há um centro.

No próximo tópico teço alguns comentários quanto ao terceiro capítulo.

Abraços do Benito Pepe


Referências Bibliográficas

CHÂTELET, François. Uma história da razão: entrevista com Émile Noel. 1.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

KANT, Immanuel. Immanuel Kant: Textos seletos. Introdução de Emmanuel Carneiro Leão. 3.ed. Petrópolis: Vozes, 2005.

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Benito Pepe

Benito Pepe: Empresário há mais de 30 anos, Administrador, Filósofo, Astrônomo Amador, Colunista, Palestrante, Instrutor e Professor Universitário. Tem formação acadêmica na área de Administração com pós-graduações em: Administração estratégica de empresas; Marketing; Filosofia Contemporânea; e Filosofia Antiga. Publica Aqui, seus textos sobre Filosofia, Astronomia, Administração, Marketing, Religião, Assuntos da Atualidade, além de um Papo geral.

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