As influências da Astronomia e a quebra de paradigmas na Modernidade

Estávamos no centro do universo, éramos os seres mais importantes do universo, todos  os corpos celestes: o sol, a lua, os planetas, tudo girava em torno de nós e portanto não havia dúvidas, nós éramos mesmo os benditos do cosmos. Esta concepção como dissemos foi “quebrada”, invalidada com Copérnico e o heliocentrismo; desta forma nós passamos a saber que não estávamos no centro deste universo, mas que éramos mais um “corpo” aí junto com os outros girando em torno do sol …

Também é quebrada a hierarquia aristotélica que dizia que da terra à lua havia uma “natureza”  e da lua para cima outra diversa. Havia uma parte superior e uma parte inferior. Em cima a natureza imutável, permanente; embaixo, a matéria mutável; acima a realidade supralunar; abaixo a realidade sublunar. A lua marcava o limite entre esses espaços, o mundo supralunar seria constituído de matéria sutil, isto fazia com que se separassem duas ciências da realidade natural, a ciência do supralunar:  a astronomia, e a ciência do sublunar: a física, como nos faz recordar Châtelet (1994, p.55).

Mas isso como dissemos foi “quebrado”, abandonado também. Aqui poderíamos lembrar de  Tycho Brahe e Michael Maestlin que após a observação de um cometa em 1577 chegaram à conclusão que ele estava além da esfera lunar, o que violaria a concepção aristotélica que pregava a imutabilidade dos céus, a quintessência, e desta forma “quebrariam”, contestariam também as chamadas “esferas cristalinas” que girariam no céu carregando os planetas.

Tivemos então, a quebra de outro paradigma que dizia ser o céu imutável, nada poderia ocorrer além da órbita da lua, mas isso ocorreu… Apareceu um cometa por lá; houve então outro questionamento: tudo pode mudar? Ainda que o acreditássemos de maneira diferente por tanto tempo?

Tínhamos também a ideia de perfeição através das órbitas circulares, hipótese que também é “quebrada”, refutada com Johannes Kepler que através de árduas observações constata que na realidade o que ocorre são órbitas elípticas e não perfeitos círculos como se supunha.

Assim, depois de tantas “quebradeiras” a única coisa que não se quebrou foram as “esferas cristalinas” por que elas não existiam. Agora, depois de tantas reformulações, o que é que sobra para este ser? Émile Noel questiona François Châtelet:  Qual é, então, a pergunta filosófica que Descartes faz?  Châtelet  responde:

…poderíamos dizer que até Descartes a filosofia fez esta pergunta:  Que é o ser?  Como ele é? Descartes pergunta: Que é o conhecimento? Isso equivale a validar o trabalho de Galileu, a mostrar em que condições gerais o trabalho de Galileu se torna inteligível. (1994, p.63).

“Portanto em que consiste o heliocentrismo?” Prossegue Châtelet, “consiste em dizer ao sujeito empírico que está aqui neste mundo: Você  acha que o mundo é como você o vê. Mas vou lhe fazer uma proposta: vamos, em espírito, até o Sol, para observar o mundo a partir dali.” (1994, p.63)  Châtelet continua concluindo que às vezes as coisas podem ser mais simples do que nós imaginamos, mas nós precisamos ver de outro ângulo. Nós precisamos sair de nosso casulo e irmos à busca do verdadeiro conhecimento.

Mas, Descartes diz que, pela perfeição divina, exige-se que o próprio Deus escreva em linguagem matemática  que é a linguagem da racionalidade integral. Acreditava também que o homem tornar-se-ia senhor e possuidor da natureza. Châtelet diz “que esse domínio da natureza não era, talvez, nem tão possível nem tão bom quanto acreditávamos.” (1994, p.65).  E isto se pôde observar com a “crise da modernidade.”

O processo de racionalismo modifica-se dos tempos gregos para a modernidade no que tange o seu jeito de ser, agora ele está mais pautado na matemática no que diz respeito às ciências naturais e especialmente na astronomia. Para Descartes até mesmo Deus é uma “evidência” da luz natural e não da luz sobrenatural. É a razão que demonstra a existência de Deus. Não é mais o Deus de Moisés, de Abraão e de Jacó.

Quanto a isto poderíamos citar Albert Einstein em 1936 quando diz: “Todos os que se envolvem na busca da ciência acabam se convencendo de que um espírito se manifesta nas leis do universo –  um espírito muito superior ao do homem.” É claro que tanto Descartes como Einstein eram homens de fé, e de certa forma buscaram a confirmação de suas crenças de maneira similar e racional.

Voltando ao racionalismo no que tange ao conhecimento temos que mencionar Kant que vai questionar a metafísica e a critica enquanto razão metafísica. A razão, diz ele, tem apenas um uso teórico, cognitivo, o de se criticar a si mesma, ser capaz de fixar limites para si mesma. Em a Crítica da Razão Prática, trecho mencionado por Châtelet diz:

Duas coisas enchem o coração de admiração e veneração, sempre novas e sempre crescentes, à medida que a reflexão se dirige e se consagra a elas: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim (…) o primeiro espetáculo,  de uma inumerável multidão de  mundos, aniquila, por assim dizer a minha importância, por ser eu uma criatura animal que deve voltar à matéria de que é formado o planeta (um simples ponto no Universo) depois de (não se sabe como) ter sido dotada de força vital durante curto espaço de tempo. O segundo espetáculo ao contrário eleva infinitamente o meu valor, como o de uma inteligência por minha personalidade, na qual a lei moral me manifesta uma vida independente da animalidade e até mesmo de todo o mundo sensível. (1994, p.102).

Podemos observar que vários pensadores influíram no modo de pensar na modernidade e ajudaram a deslocar os posicionamentos do homem nesse mundo. Para Kant, por exemplo, só há conhecimento sob o horizonte de uma totalidade graças à qual a experiência pode ser pensada como sistema. Chega-se ao conhecimento dado pela razão ao debruçar-se sobre a natureza.

A “revolução copernicana” em filosofia, como diz Kant se dá quando: não é o sujeito que se orienta pelo objeto (o real), como quis a tradição, mas o objeto que é determinado pelo sujeito.  Vide o prefácio à segunda edição da Crítica da Razão Pura (1787).  Sujeito e Objeto são, portanto, para Kant termos relacionais.

A recolocação, o reposicionamento do homem ainda não acabou… Nós agora neste momento sabemos que além de nosso pequenino planeta não estar no centro do sistema solar, a nossa estrela o Sol também não está nem mesmo no centro de nossa Galáxia, nos encontramos em um “cantinho” do braço de Órion há aproximadamente 27.000 anos luz de distância do centro da Galáxia. E sabemos também que nem mesmo nossa galáxia é centro de alguma coisa, nem sabemos se há um centro.

Comentários

Como dizia Albert Einstein: “a imaginação é mais importante do que o conhecimento”.  E , acreditamos, que foi e é através dela que a humanidade chegou até os nossos dias. Os conhecimentos de todas as categorias não poderiam existir se não fosse por nossa imaginação;  por isso  gostaria de questionar: porque temos que pensar sempre com a razão? Esta mesma humanidade existe há aproximadamente 2 milhões de anos e esta chamada razão só é mensurada há aproximadamente 2 mil e 500 anos (?)

Portanto quem somos nós hoje? Homens ínfimos em uma imensidão cósmica, inimaginável em sua totalidade, tal como nós mesmos o somos inimagináveis em nossa totalidade. Talvez por sermos “poeira das estrelas” ou seja, formados, constituídos, elaborados por “químicas” provindas de bilhões e bilhões de anos do universo, por nascimentos  e mortes de outras estrelas, somos por isso uma parte deste universo físico. Temos em nosso corpo e quem sabe em nossa mente, em nossa alma, uma essência deste cosmos. Talvez seja por isso tão importante continuarmos a estudar o universo, quem sabe assim nos conheçamos melhor?

Vimos tantos e tantos paradigmas que foram quebrados na modernidade, mas quem sabe outros tantos não sejam quebrados agora na pós-modernidade ou hiper-modernidade como preferem chamar alguns, ou mesmo em um futuro longínquo. E quem pode afirmar que será sempre através desse racionalismo científico sistemático que se chegará à verdade? Se é que um dia possamos chegar até ela.

O Thauma quanto aos fenômenos da Natureza e quanto ao Ser, permanecerão esquecidos? Algumas situações ocorrem na modernidade e fazem com que o homem se afaste da ideia de imanência e da tentativa de compreender o mundo natural em sua inteireza, como nos lembra Brockelman (2001, p.59-60) e que transcrevo de forma reduzida:

Uma delas é a mundivisão cartesiana que retratava a realidade como dividida em dois aspectos, “espírito” e “matéria”, assim a natureza foi dessacralizada, e uma teologia ou cosmologia natural foi considerada impossível; 2. outra é que até meados dos séculos XIX as ciências naturais tinham-se fragmentado em inúmeras disciplinas separadas, cada uma com focos e formas de discursos diferentes. Assim excluíam o Todo e a interdependência dessas partes; 3. Por último temos que o próprio modelo de fazer ciência parecia impedir uma imagem abrangente do Todo na medida em que o objetivo era estudar e reduzir esses todos (incluindo a “natureza”) a suas partes. Assim os todos – e o Todo – foram simplesmente menosprezados porque a ciência estava demasiado fascinada com as partes para notá-los (e notá-lo).

Solicito uma pequena reflexão: voltaremos agora na contemporaneidade a tentar compreender esse Ser e esse cosmos em sua inteireza, em sua inter-relação, em sua totalidade?  Se nós nos esquecemos do sentido do Ser, será que nós nos preocuparemos com esta nossa origem cósmica? Retomaremos a estas questões no capítulo final.

O homem tão distante da natureza, por uma serie de diversos motivos, vai se esquecendo do sentido mais profundo da existência. Na modernidade ao pensar que poderíamos dominar a natureza, nos perdemos na “floresta”, pois a natureza ou física é muito maior do que poderíamos imaginar em nossa vã filosofia e “conhecimento”.

Com a ideia da possibilidade de dominação da natureza, perdemos o sentido de pertencimento a ela, perdemos a acepção de imanência que tínhamos. Um dos aspectos importantes para nossa compreensão, quando nos referimos ao mundo antigo, é entendermos que os deuses gregos, diferentemente do Deus da tradição judaica-cristã, são imanentes à Natureza, eles não estão fora dela; esses deuses têm um grau de pertencimento intrínseco e nascem junto com o “cosmos” diferentemente do Deus Judaico-cristão que está fora do universo e o cria para o homem.

Portanto a Physis (“física”) grega, tem um sentido bem diferenciado de como é considerada a nossa natureza, especialmente a partir deste período da modernidade em diante (século XV); a physis grega era qualitativa e não quantitativa como passa a ser estudada a “nossa natureza”, podemos dizê-la como aquilo que se mostra, o que aparece, o que brilha. O Thauma, o espanto, a perplexidade, admiração, estarrecimento, maravilhamento, estranhamento, que aparece na Natureza, como vimos, é um dos aspectos que nos seus primórdios levaram os homens à filosofia inicial e assim os primeiros filósofos são tratados como os filósofos da natureza ou physis. Por isso lembramos: a physis e a filosofia são instâncias em que o thauma aparece.

A imitação da natureza pelos gregos era totalmente diferente da imitação dessa natureza pelos modernos. Com os modernos a natureza se torna objeto. Nos gregos e por exemplo em Heráclito como vimos, se dizia que “a physis ama ocultar-se”, diferentemente do que ocorre na modernidade em que o homem pretende des-velar a natureza.

No próximo tópico: Heidegger e os Gregos: o Ser e o Céu

Abraços do Benito Pepe

Benito Pepe

Benito Pepe: Empresário há mais de 30 anos, Administrador, Filósofo, Astrônomo Amador, Colunista, Palestrante, Instrutor e Professor Universitário. Tem formação acadêmica na área de Administração com pós-graduações em: Administração estratégica de empresas; Marketing; Filosofia Contemporânea; e Filosofia Antiga. Publica Aqui, seus textos sobre Filosofia, Astronomia, Administração, Marketing, Religião, Assuntos da Atualidade, além de um Papo geral.

3 comentários em “As influências da Astronomia e a quebra de paradigmas na Modernidade

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