O estruturalismo científico-astronômico-filosófico

Galáxias espalhadas pelo Universo.
Foto tirada através do
Telescópio espacial Hubble.
Na estrutura da linguagem científica temos: em física, a estrutura nuclear do átomo; em astrofísica, a estrutura do universo. E é a esta estrutura do universo a que nos ateremos, mas este conhecimento do universo muda com o tempo, muda com o sujeito. Esta é uma estrutura um pouco diferente da linha de raciocínio que comumente usamos para o estruturalismo filosófico.
Enquanto o estruturalismo nas ciências sociais tornam o sujeito “corpos” dentro de um sistema e o eliminam. O Estruturalismo dentro das ciências naturais e especificamente na Astronomia se inter-relaciona com ele fundamentalmente. O estruturalismo que é utilizado na estrutura do Cosmos ainda não acabou com o universo, não o matou; mas na filosofia o estruturalismo através das ciências humanas “aniquilou, matou” o homem.

Dois grandes livros de Alexandre Koyré (1892-1964) citados por Delacampagne (1997), Estudos galileanos (1939) e Do mundo fechado ao universo infinito (1975) mostram que:

(…) a matematização da física inaugurada por Galileu não é nem uma reforma de detalhe, nem uma inovação puramente técnica. Corresponde, ao contrário, a uma revolução intelectual, isto é, a uma transformação da nossa imagem do mundo – desaparecimento da crença medieval em um cosmo fechado e hierarquizado, substituído pela idéia de um universo infinito e homogêneo nas três direções – , em suma, a uma mudança global dos nossos hábitos de pensamento, tanto científicos quanto filosóficos e religiosos. (p.240).

A grande estrutura do universo muda conforme muda o nosso “conhecimento”, ampliando-se nossas linguagens sejam elas matemáticas, físicas ou outras que fazem com que tenhamos uma nova visão desta estrutura maior. Assim o cosmos muda o nosso pensamento o nosso pensamento muda o cosmos.

Para dar outro exemplo. Na época dos gregos e principalmente na idade média imaginava-se um universo fechado em que a Terra seria o centro e que até a lua existiria uma matéria-física sub-lunar a mesma que regia no planeta, e acima da lua uma outra matéria-física que seria imóvel e imutável e ali estariam os corpos fixos. Um universo finito e limitado pela abóbada celeste. Depois na modernidade pensou-se em um centro não mais para a Terra e sim para o Sol. Hoje a visão do cosmos está muito mais ampliada, além de sabermos que a nossa estrela o Sol não está no centro desta estrutura cósmica, e nem mesmo sabemos se há algum centro nesta estrutura universal, imaginamos uma infinitude ainda mais sem bases estruturais microscópicas, ou seja perdemos qualquer fundamentação no sentido mesmo de fundação de estrutura básica para construir este universo.

As estruturas microscópicas dos átomos que foram confirmadas, recentemente depois de cogitadas pelos pré-socráticos há mais de 2500 anos atrás, foram neste século passado encontrando uma nova barreira que poderíamos chamar de “estruturas ocultas da matéria”, pois a física quântica quebra de certa forma todo um determinismo da matéria. Tínhamos que o átomo seria a menor partícula da matéria, mas “sabe-se” hoje que as sub-partículas ou partículas elementares ou quantum, além de possivelmente não serem a ultima fronteira estrutural, não têm uma localização determinada e certa. O mundo quântico é indeterminado, é oculto. Mas mesmo assim se inter-relaciona conosco, conforme afirma Andreeta (2004).

De todos os paradigmas podemos citar mais um: antes dizíamos que a reta era a distância mais curta entre dois pontos. Mas hoje com o conhecimento das quatro dimensões, três de espaço e uma de tempo, sabemos que muitas vezes o caminho mais curto no espaço é “uma curva”, ainda que não do objeto lançado, mas de todo o espaço-tempo. Conforme menciona Blackburn (1997)

Espaço-tempo é: A estrutura que resulta de se conceber o espaço e o tempo conjuntamente, como uma entidade tetradimensional. Os pontos no espaço-tempo são chamados de acontecimentos. Na teoria da relatividade, cada acontecimento no espaço-tempo está associado a um cone de luz do passado (o conjunto dos acontecimentos passados que podem tê-lo influenciado) e a um cone de luz do futuro (o conjunto dos acontecimentos futuros que pode vir a influenciar), estando a possibilidade da influência em questão limitada pela velocidade da luz. (p.122).

Agora para ilustrar um pouco as dimensões da estrutura “conhecida” do universo ou seja o “mapa do universo” vamos partir da Terra que está a 8 minutos luz(1) de distância do Sol. A estrela mais próxima de nós é a alfa de Centauro, (visualmente “próxima” ao cruzeiro do sul) que está a 4 anos luz distante. Estamos a aproximadamente 27.000 anos luz do centro de nossa Galáxia a Via-Lactea (uma Galáxia que tem aproximadamente 100.000 anos luz de extensão e 200 bilhões de estrelas). Há algumas “pequenas” galáxias satélites em torno de nossa galáxia, mas a outra Galáxia significativa mais próxima da gente é Andrômeda que está há 2,2 milhões de anos luz de distância. Em nosso grupo de galáxias temos umas 30 galáxias, que estão ligadas em uma área de distâncias aproximadamente de 3 ou 4 milhões de anos luz. Depois seguimos com um aglomerado que agrupa outros grupos que se distanciam entre 10 e 20 milhões de anos luz. Após teríamos nuvens de aglomerados com 30 e 50 milhões de anos luz; filamentos e Superaglomerados com 10.000 galáxias; e finalmente, estruturas ou grandes muralhas com um bilhão de anos luz e tudo isto correspondendo a apenas 5% do universo observável. (este é um dos possíveis relatos da estrutura cósmica para as três dimensões espaciais conhecidas).

São impressionantes estes números que mencionei propositadamente para lembrarmos como o pensamento modifica-se com o tempo e como se modificaram as visões dos estudiosos da natureza e do cosmos nestes últimos milênios e principalmente no último século.
Mesmo quando “vemos” algo com o telescópio estamos ainda assim vendo algo que está a milhares, milhões ou bilhões de anos luz de distância ou seja não está lá agora como o vemos…. mas o maior paradoxo são as tentativas de descrever o cosmos em toda a sua complexidade através de teorias que se apóiam em outras teorias não menos complexas e ainda mesmo não totalmente aceitas pela própria comunidade científica.
O tamanho do Universo é o tamanho de nossa linguagem; de nosso pensamento; é o tamanho de nosso “conhecimento”. Mas podemos “viajar” com nosso pensamento, ainda que sem sair do lugar. Como nos descreve Appiah (2006), através de sons e símbolos gráficos podemos nos conectar com outros lugares e períodos passados por distâncias inimagináveis, viajamos no tempo e no espaço.
Suponhamos que eu pergunte: Há criaturas com consciência do outro lado da galáxia? Com isso, estou em certo sentido conectado, através destas palavras, com um lugar a centenas de anos luz ao qual eu literalmente não poderia chegar mesmo que viajasse durante muitas vidas em uma nave espacial. (p.84)
É sem dúvida um grande thauma, um verdadeiro espanto, este imenso universo; é impressionante que este homem que ainda é um “bebê” no planeta, possa imaginá-lo e “viajar” por sua imensidão embora sem sair do lugar. Acreditamos que o pensamento seja mais veloz do que a luz, a imaginação idem, assim vencemos obstáculos e descobrimos outros a vencer novamente, e o nosso universo cresce conosco e agente cresce com nosso universo. Se há uma imagem e semelhança nossa em algum lugar do universo é o próprio cosmos e toda a sua química, todos os seus elementos espalhados por essa imensidão que de alguma forma nos mantém interligados, interconectados com a própria criação.

Somos poeira das estrelas portanto somos estrelas. Somos o cosmos. Se acabarmos com o universo, acabaremos conosco.

Abraços do Benito Pepe

(1) A velocidade da luz é de aproximadamente 300.000 km por segundo. Velocidade essa capaz de, teoricamente, dar 7 voltas ao redor da terra neste um segundo.

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Bibliografia

ANDREETA, José Pedro. Quem se atreve a ter certeza?: A realidade quântica e a filosofia. 1. ed. São Paulo: Mercuryo, 2004.

APPIAH, Kwame Anthony. Introdução à filosofia contemporânea. 1.ed. Petrópolis: Vozes, 2006.

DELACAMPAGNE, Christian. História da filosofia no século XX; tradução, Lucy Magalhães. 1. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.

BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de filosofia. 1.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

Benito Pepe

Benito Pepe: Empresário há mais de 30 anos, Administrador, Filósofo, Astrônomo Amador, Colunista, Palestrante, Instrutor e Professor Universitário. Tem formação acadêmica na área de Administração com pós-graduações em: Administração estratégica de empresas; Marketing; Filosofia Contemporânea; e Filosofia Antiga. Publica Aqui, seus textos sobre Filosofia, Astronomia, Administração, Marketing, Religião, Assuntos da Atualidade, além de um Papo geral.

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