Nas Alturas da Espiritualidade Árabe e do Oriente

Este texto que segue me foi enviado pelo amigo José Maria Dias, a quem se devem os créditos e comentários.

Um dos elementos que  distingue a literatura árabe é a espiritualidade. É mais fácil  reconhecer a espiritualidade do que defini-la. Ela é a presença do sobrenatural em nossa vida e em nossos escritos. É a convicção de que há um mundo superior a este mundo, valores superiores ao interesse, a riqueza, ao prazer, à dominação e aos valores terrenos, e que a vida humana deve ser uma viagem que nos leva do limitado ao ilimitado em nós, da cegueira à compreensão, do amor de si ao dom de si.

Um exemplo concreto nos introduzirá de imediato no mundo fascinante da espiritualidade na literatura árabe; “Remeteram um dia, a Ibn Hassan An-Nuri a importância de 300 dinares de ouro, proveniente da venda de uma propriedade sua. Levou-os consigo até a ponte de Saráf, sentou-se à margem do rio e começou a lançar as peças de ouro uma após a outra na água. Cada vez que lançava uma peça, dizia: “Senhor meu, queres afastar-me de Ti, expondo-me à sedução desta peça de ouro… E desta… E  desta?”Até ter jogado toda a importância na água.  Ibn Hassan an-Nure não foi o único. Antes dele e depois  dele, inúmeros homens do mundo e eremitas foram mais atraídos pela amizade com Deus do que pelas riquezas e glórias desta terra, sentindo e agindo como se o Além fizesse parte de sua vida quotidiana. E como eram eles, ao mesmo tempo, grandes escritores ou poetas, registraram seus sentimentos e suas experiências em contos, preces, poemas, preleções e historias que iluminam a literatura árabe de uma aurora  eterna, projetando seus ideais para além dos limites do homem e do mundo.

Por que a literatura árabe é a literatura da espiritualidade? Pelas mesmas circunstâncias que a tornaram a literatura da sabedoria e da imaginação. O destino fez daquela terra a pátria dos profetas e dos santos, o lugar de encontro entre o homem e Deus. E a Natureza completou a obra do destino, dando ao Oriente Médio a configuração geográfica mais adequada a manter uma vida espiritual rica: as montanhas e o deserto.

 No Oriente Médio, as montanhas têm sido sempre elevações espirituais tanto quanto geográficas. Naquelas alturas dominadas à noite por um firmamento tão límpido e estrelado que parece um teto apenas mais elevado do que outros, a inspiração divina tem descido sobre os homes, dos mais humildes aos mais preeminentes. Foi nas montanhas do Oriente Médio que Moisés recebeu as Tábuas dos Dez Mandamentos, que Zaratustra concebeu seu ideal do super-homem, que Jesus pregou o seu mais belo sermão da História (justamente chamado o sermão da montanha) e que Maomé foi incumbido de sua missão profética. O deserto foi, ao seu modo, outro caminho rumo ao sobrenatural. O deserto é como um oceano arenoso ilimitado. Suas ilhas são os oásis. Mas ele possui algo que nenhum oceano possui: as miragens, essas ilusões óticas que apagam  o limite entre o real e o irreal e transformam o deserto numa região feérica. De dia, alturas aparecem ao longe. Não se sabe se são montanhas ou miragens. De noite, luzes brilham no horizonte, não se sabe se são luzes ou estrelas.

No Deserto toda hora, a imensidão e o silêncio dão a sensação do infinito… O homem se sente só e anseia instintivamente por um apoio sobre-humano, por uma presença divina… O santo se torna mais santo… O crente se torna mais crente…  O cético é invadido por uma dúvida e uma angustia irresistível.

Foi nesse duplo quadro de beleza e de inspiração que povos já dotados pela Natureza do senso do sobrenatural criaram uma literatura mais espiritual do mundo. Citemos mais um exemplo: “Conta Al-maqdisse que sendo companheiro de Ibrahim Ibn Adhas, interrogou-o um dia sobre sua conversão ao misticismo, e como havia abandonado seu trono para procurar a Deus… Ibrahim respondeu-lhe: Estava eu sentado em meu palácio quando vi pela janela um mendigo que se postara diante da minha porta. O mendigo tirou do seu alforje um pedaço de pão seco, molhou-o na água e comeu-o. Depois bebeu a água, rendeu graças a Deus e dormiu no chão. Mandei um dos meus servidores vigiar aquele faquir e trazê-lo a mim quando acordasse… Ao chegar mais tarde à minha presença, saudou-me e retribui-lhe a saudação, fiz que sentasse e disse-lhe: Ó faquir, tendo fome, comeste aquele pão e ficastes satisfeito? Sim. Tinhas sede e bebestes a água com prazer? Sim. Dormiste sem inquietação nem preocupação e estás repousado? Sim. Tudo isto me fez refletir profundamente: Que tenho a fazer, disse a mim mesmo, com todo luxo deste mundo, onde não encontro satisfação, enquanto a alma pode estar contente com o que acabo de ver e ouvir? Concluí então um pacto de arrependimento com Deus. Quando chegou à noite, cobri-me com um manto de pele e um barrete de lã e fugi de pés nus do meu palácio, para levar uma vida errante, como aquele mendigo vagabundeando em direção a Deus.

Hoje, apesar do intercâmbio das culturas, é ainda o Oriente que produz as grandes obras espirituais da literatura universal. Basta mencionar os nomes de Tagore e de Giban. E a literatura  árabe, mesmo neste século de ferro, continua a pregar a superioridade dos bens espirituais sobre os bens materiais e a convidar o homem a procurar a felicidade e a grandeza menos na opulência e na dominação do que na paz de espírito e nos atos de abnegação e de heroísmo.

Abraços do Benito Pepe

(Texto enviado por José Maria Dias)

Benito Pepe

Benito Pepe: Empresário há mais de 30 anos, Administrador, Filósofo, Astrônomo Amador, Colunista, Palestrante, Instrutor e Professor Universitário. Tem formação acadêmica na área de Administração com pós-graduações em: Administração estratégica de empresas; Marketing; Filosofia Contemporânea; e Filosofia Antiga. Publica Aqui, seus textos sobre Filosofia, Astronomia, Administração, Marketing, Religião, Assuntos da Atualidade, além de um Papo geral.

5 comentários em “Nas Alturas da Espiritualidade Árabe e do Oriente

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    Olá Amigo José Maria Dias. Obrigado pelo lindo Texto, ele está MARAVILHOSO!! Parabéns!!

    Este texto me fez lembrar de Diógenes um homem que na época de Alexandre o Grande, vivia uma vida “errante” e morava dentro de um grande barril, ali dormia… era um pobre mendigo. Um dia Alexandre o Grande querendo prestigiá-lo por sua vida honesta, lhe disse: “você sabe quem eu sou?” e Diógenes disse: “Sim.” Alexandre prossegue: “então sabes que eu posso tudo, pedes o que queres que eu te darei.” O pobre mendigo, Diógenes, disse-lhe: “Por favor então saia da frente do meu sol o senhor está me fazendo sombra”

    É isso aí, o Valor para aquele homem estava na própria vida, no seu sol, na vida em natureza, não na riqueza e nem nos bens que passarão…

    Saúde e Vida ao Oriente, e que o Ocidente se cuide!

    Abraços do Benito Pepe

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    Olá meu amigo, é muito gratificante receber elogios de sua parte. Ao encontrá-lo na internet depois de tantos anos e com todo este brilhante trabalho no seu site. Joguei o meu problema de saúde para o lado, e mergulhei no mundo fascinante dos estudos dos temas por você apresentado, MUITO OBRIGADO.

    Quanto ao texto, eu acho que:

    As diferenças fundamentais entre a mente oriental e ocidental explica o papel preponderante da imaginação na literatura árabe. O ocidental é mais cartesiano. Percebe pela razão e a observação, e demonstra com silogismo, experiência, estatística. Seu campo predileto é a ciência. Sua época de ouro é a presente era da tecnologia. Quase todos os grandes cientistas são ocidentais. O oriental é mais intuitivo. Seus dons maiores são a imaginação, a inspiração, a visão e a profecia. As verdades que ele descobre não são aquelas que se escondem nos laboratórios e que uma pesquisa paciente revela, mas aquelas que a intuição percebe num relance ou que a fantasia vai buscar em mundos desconhecidos. Seu campo predileto é a religião, a filosofia, a literatura. Sua época de ouro foi a época da fé, quando a religião era o primeiro poder, quando os profetas eram os guias do povo, quando o homem conversava com Deus. Então, vindo do Oriente, uns pescadores conquistaram Roma; e uns beduínos edificaram um império que se estendeu sobre três partes do mundo.
    São estas as minhas opiniões sobre o texto acima. Gostei da sua chamada de Atenção para o ocidente. Mais vez aquele grande abraço.

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    Valeu meu amigo Dias, bonita réplica. O mérito é teu por você estar “lutando” e digo mais, muitos com a saúde plena não conseguem desenvolver textos tão belos quanto os teus.

    Bem, estou analisando o outro texto que você mandou sobre o “renascimento” e devo publicá-lo em breve. Pode continuar a elaborar teus textos que terei muito prazer em alocá-los no meu Site/blog. Lembrando que, de preferência, os temas devem ser: Filosofia, Sociologia, Astronomia, Religião, Administração, Marketing e Assuntos da Atualidade. Além do foco principal do Site que é Gestão de Empresas, Treinamento de Equipe, cursos e Palestras, atividade que venho desenvolvendo com muito prazer, onde tenho a oportunidade de, em minhas palestras, apresentar um pouco destes assuntos. A propósito aceito convites para palestras na região dos lagos também…

    Abraços do Benito Pepe

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    Olá J M Dias, parabéns pelo texto! Eu venho acompanhando os textos do Benito Pepe, e percebo que você põe muitos comentários neste site. Só faltava mesmo você começar a publicar também teus escritos…. Quanto a este assunto, quero fazer uma pergunta: você J M Dias, acha que as pessoas do mundo oriental pensam de maneira diferente das pessoas do mundo ocidental?
    Para completar esta pergunta eu publico esta mensagem que recebi pela Internet:

    Um ocidental em visita à China ficou surpreso de ver a quantidade de velhos saudáveis e, curioso sobre os aspectos da milenar medicina chinesa, indagou de um experiente médico qual o segredo para se viver mais e melhor.

    Ouviu do mesmo a sábia resposta:

    “- É muito simples. É só:

    1-Comer a metade.
    2-Andar o dobro.
    3-E rir o triplo.”

    Simples, mas em verdade é o inverso do que se assiste na vida agitada e insana dos “civilizados” ocidentais…
    att Carlos

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    Olá meu amigo Carlos, obrigado pêlos elogios,está correta a ressposta.Vou te colocar, no rol dos homens perfeitos,de acordo trecho abaixo.
    Antes de aagir, o sábio procura sempre que possivel, esclarecer-se com a opinião dos outros: pois ao ensensato pertence satisfazer-se com sua única opinião. Os antigos dividiam os homens em três categorias; aa dos homens perfeitos,que possuem sabedoria e procuram os conselhos dos outros; a dos homeen semiperfeitos, que não possuem sabedoria, mas procuram os conselhos dos outros; e a dos homens imperfeitos, que não possuem sabedoria e não procuram os conselhos dos outros.
    É isto aí, os ocidentais, fazem o que pensa, o oriental pensa no que vai fazer. Um grande abraço, e muito prezer em ter um contato com você.

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