O Ser humano em um processo de Desterritorialização, os “movimentos”, o Tempo e o poder no conhecimento, especialmente na Astronomia (Parte 1)


1.1. Introdução

Pretendemos neste texto relembrar de forma figurativa e alegórica a história da humanidade, em sua transformação física-biológica-psicológica.

Conforme menciona Deleuze(1) “O homem é um animal se despojando da espécie” deixamos nossa animalidade e estamos em um processo de humanização. Este é um processo que demanda sofrimento e está em aceleração progressiva nos últimos séculos.

Uma das questões para reflexão é que o homem “tem” sua humanidade, mas mantém sua animalidade.

As diversas instituições nos moldam e são moldadas por nós.


Veremos como o que chamamos de “mal da altitude” nos aflige e requer movimento constante. O delírio é o motor que move. E o movimento faz com que nos tornemos o que somos ou o que vamos ser.

Mas “somos movimento” desde nossas origens cósmicas estelares. O nosso pensamento é imanente ao cosmos.

A física quântica mostra que a natureza é autônoma; assim o pensamento também o é.

O universo se expande. O nosso pensamento, o nosso “conhecimento” também. Mas o conhecimento é usado como forma de poder.

É a dinâmica do capitalismo que acelera o tempo. No capitalismo tempo não é só dinheiro, tempo é poder.

1.2. O Ser Humano e o Processo de Desterritorialização

A Desterritorialização é uma saída do “território”. Este é um conceito de Deleuze e Guattari. Mas este processo requer “naturalmente” uma Reterritorização, ou seja a “criação” de um outro novo Território. (Mas este conceito é mais amplo do que pode parecer em princípio, não está propriamente ligado a apenas um território físico)


Inicialmente a Desterritorialização era usada para processos psicanalíticos, mas depois é ampliada para toda a filosofia. Poderíamos considerar que a “criação” de novos “territórios”, ainda que realmente necessários, são agora, mais móveis e descontínuos. Não como os originais, que certamente levaram muitíssimos milênios para modificarem-se. Os novíssimos territórios criados pela humanidade modificam-se como os ventos…

Quando queremos nos utilizar do conceito Deleuziano de Desterritorialização, pretendemos neste texto, nos concentrar no sentido mais relacionado às questões físico-biológicas e antropológicas da humanidade e não propriamente a um território geográfico. Mas sim ao que tange ao próprio homem enquanto espécie “deixando” os seus territórios naturais, saindo da sua “floresta” e entrando na sua “cidade”.

Este é um grande êxito de uma “duração” que começa em um processo lento e gradual lá nos primórdios dessa espécie há pelo menos dois milhões de anos e entra em aceleração progressiva nos mais recentes milênios desta humanidade. Naturalmente tivemos a necessidade de transformações e adaptações múltiplas para chegarmos em nosso novo território. Mas esta re-territorialização, “necessária”, transforma o homem que por sua vez transforma este território. (a natureza em todos os sentidos)

Quando estávamos lá na pura natureza, no nosso território natural, na nossa origem; o nosso Éden era nosso Paraíso. Fomos nos modificando, nos transformando, e assim deixamos o Ser que éramos.

Se observarmos a natureza com um pouco de atenção, perceberemos que embora tenhamo-nos distanciado daquele território original, ainda estamos envolvidos com a nossa “essência” dessa natureza. Este processo de desterritorialização e reterritorialização, quando mais lento, era provavelmente menos sofrido ou traumático, pois a lentidão milenar é uma coisa totalmente diferente deste novo processo em que passa a humanidade e que é um processo, como dissemos, em aceleração progressiva; é muito rápido, portanto, não mais milenar. Há algum tempo passou a ser secular e agora estamos “transformando-nos” em décadas e quem sabe apenas a cada novo ano.

Poderíamos fazer uma alusão com uma de nossas necessidades básicas: a Locomoção. Seria até análogo com o conceito em questão. Pois bem, então se caminharmos do nível do mar até uma montanha distante, seguindo as suas trilhas durante vários dias de caminhada e chegarmos ao topo da Cordilheira dos Andes por exemplo, deixaremos uma pressão atmosférica maior – no nível do mar – e alcançaremos uma altitude de 4 ou 5 mil metros com uma pressão atmosférica e nível de oxigênio baixíssimo. Faríamos isto em muitos, muitos dias de caminhada, o que nos facilitaria acostumar aos poucos nosso organismo a essa nova altitude, sem muito sofrimento.
Agora, se pegarmos um automóvel e fizermos a mesma viagem em algumas horas, certamente sentiríamos muito mais o problema da altitude. E se fizéssemos esta mesma viagem em um avião? Deixaríamos o nível do mar e em alguns minutos estaríamos em uma cidade dessa altitude. Com certeza quem não tem o hábito de fazê-lo precisará de um medicamento próprio para a altitude ou tomar o famoso “chá de folha de coca”.

Bem, com esta analogia gostaríamos de destacar o que de fato ocorre com a humanidade nos dias de hoje. O homem ocidental deixou sua natureza “em avião”. Antes “caminhávamos a pé”, como o fazem ainda algumas tribos espalhadas pelo Planeta, há tribos que vivem em harmonia com a natureza e portanto em sintonia com a sua essência natural.

Se observarmos a natureza, veremos claramente que um animal está em harmonia com a sua essência, por exemplo: procria e cria os seus filhotes sem precisar de médicos ou orientadores. O macho faz o seu papel de procriador, a fêmea gera e cuida de sua cria com toda a dedicação, intensidade e exclusividade necessárias; precisando deixar de lado o macho e às vezes até abandoná-lo, quando não mais necessário, a fim de manter seus filhotes em segurança pois muitos machos são até perigosos para os seus filhotes.

O macho por sua vez, em muitas espécies, “possui” várias fêmeas. Talvez pelo fato da natureza do macho, ele necessite mais intensamente ou quantitativamente do “sexo”, mesmo depois da cria. Enquanto a fêmea necessita mais de afeto e proteção. Portanto estes animais estão vivendo sua animalidade e seu “território” em toda a sua intensidade.

Nossa espécie bem diferente dos demais animais modificou drasticamente sua animalidade, e em um processo, como dissemos antes: lento e agora acelerado, se desterritorializou. Então vivemos um dos momentos mais problemáticos da humanidade, fomos e somos influenciados pelas diversas instituições. É claro que depois que estamos no topo da montanha precisamos nos re-adaptar, queiramos ou não, com esta nova altitude. Faremos isto nos “adequando” ao “novo território” e/ou através dos “medicamentos”, ou passamos mal.

Ainda que descêssemos ao nível do mar, o “mal da altitude” não cessaria rapidamente. E o mais notório é que depois de conhecer a altitude, ainda que com sofrimento, não queremos deixá-la para sempre, pensamos de vez em quando em ir ao “nível do mar”, mas voltamos à “montanha”.

Em outras palavras nossa “humanidade” não deixa facilmente nossa “animalidade” e nossa animalidade busca a humanidade. Nossa desterritorialização sempre nos proporcionará novos territórios, isto nos parece um processo da vida humana seja ele com casualidade ou ao acaso dependendo do magistério que o estuda, seja a ciência ou a religião. O fato é que os filósofos não estão propriamente apegados a um ou outro magistério, mas desde nossos primórdios lá na Grécia antiga dizemos: sou um filósofo, ou seja, um amante do saber. Mas como dizia Sócrates: só sei que nada sei.

Se tivéssemos caminhado não sofreríamos tanto o “mal da altitude”, mas certamente sofreríamos outros males. Esta é a humanidade se desterritorializando, deixando sua animalidade e alcançando sua humanidade, mas agora sofrendo o “mal da altitude” por fazê-lo de “avião”.

Cabe a nós nos conformar e esperar o advir? Mas, se só esperamos não saímos do lugar. Como dissemos alegoricamente, o êxodo requer movimento. Embora nos pareça ser a vida humana um advir eterno, é preciso o movimento. E assim nos cabe, ao menos, permitir que esta viagem seja a menos sofrível possível e a mais agradável o tanto quanto desejável.

(1) Deleuze no texto: “Instintos e instituições” (1955), pode ser visto no livro A ilha deserta, vide Bibliografia.


Bibliografia

ANDREETA, José Pedro. Quem se atreve a ter certeza?: A realidade quântica e a filosofia. 1. ed. São Paulo: Mercuryo, 2004.

APPIAH, Kwame Anthony. Introdução à filosofia contemporânea. 1.ed. Petrópolis: Vozes, 2006.

CHÂTELET, François. Uma história da razão: entrevista com Émile Noel. 1.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

DELACAMPAGNE, Christian. História da filosofia no século XX; tradução, Lucy Magalhães. 1. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.

DELEUZE, Gilles. A ilha deserta: e outros textos. 1.ed. São Paulo: Iluminuras, 2006.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia, Vl 7: de Freud à atualidade; tradução de Ivo Storniolo; 1.ed. São Paulo: Paulus, 2006.

SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, n* 12 Edição especial – Etnoastronomia.

Benito Pepe

Benito Pepe: Empresário há mais de 30 anos, Administrador, Filósofo, Astrônomo Amador, Colunista, Palestrante, Instrutor e Professor Universitário. Tem formação acadêmica na área de Administração com pós-graduações em: Administração estratégica de empresas; Marketing; Filosofia Contemporânea; e Filosofia Antiga. Publica Aqui, seus textos sobre Filosofia, Astronomia, Administração, Marketing, Religião, Assuntos da Atualidade, além de um Papo geral.

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