A Doutrina de Platão

Continuando o texto: “Platão uma Visão Geral de sua Obra e Doutrina

A filosofia de Platão recebeu inúmeras interpretações não só devido a sua complexidade, mas por apresentar diversas etapas, em especial no que se refere à evolução das soluções que deu à teoria das idéias, poetizada e obscurecida pelo uso da linguagem simbólica. No entanto, suas doutrinas centram-se num propósito principal: opor-se ao relativismo dos sofistas, o que implica a suposição de haver conhecimento independente de fatores circunstanciais.

Assim, o objetivo platônico era o conhecimento das verdades essenciais que determinam a realidade, a ciência do universal e do necessário, para poder estabelecer os princípios éticos que devem nortear a realidade social, em busca da concórdia numa sociedade em crise. Nesse sentido, sua obra pode ser considerada como um conjunto coerente, articulado pelo tema condutor da teoria das idéias.

É bom lembrar que Platão nunca declarou esse nome “Teoria das ideias”, mas é como essa “doutrina do conhecimento” passou a ser chamada.

Teoria das ideias: conhecimento e metafísica

Como primeiro passo para sua metafísica, Platão julgou indispensável elaborar uma teoria do conhecimento. O problema com o qual ele se defrontou foi o problema do ser. Uma vez que os sentidos nos revelam as coisas como múltiplas e mutáveis, ao passo que a inteligência nos revela sua unidade e permanência, procurou uma solução que conciliasse o testemunho dos sentidos e as exigências do conhecimento intelectual. Baseou-se nos conceitos matemáticos e nas noções éticas para demonstrar que a essência real e eterna das coisas existe. Usou como argumento a possibilidade de pensar figuras geométricas puras, que não existem no mundo físico. Da mesma forma, todo homem tem as noções de bem e justiça, por exemplo, que não têm correspondente no mundo sensível. Concluiu pela existência de um mundo de essências imutáveis e perfeitas, as ideias arquetípicas (“modelos”, formas imutáveis). Estas constituiriam a realidade inteligível, objeto de conhecimento científico ou epistemológico, cujas leis o mundo sensível, objeto de opinião, reproduziria de forma imperfeita.

O homem, por ter corpo e alma, pertenceria simultaneamente a esses dois mundos.
Na hierarquia das ideias, situa-se no topo a ideia do bem, da qual participam as demais. Logo abaixo estão as ideias de beleza, verdade e simetria e, em plano inferior, os valores éticos e os conceitos matemáticos. Além disso, cada classe de ser existente no mundo sensível possui sua forma ideal: homem, cachorro, casa etc. A relação entre os diferentes seres que constituem uma classe e seu arquétipo (“modelo”), por exemplo, entre um homem e a ideia de homem, se explica pelo fato de serem os objetos sensíveis cópias ou imitações da ideia perfeita, (que só existe no mundo das ideias).

A  Alma na visão de Platão

Segundo Platão, a alma é anterior ao corpo, e antes de aprisionar-se nele, pertenceu ao mundo das ideias. Sua natureza é tripartida: no nível inferior, está a alma sensível, morada dos desejos e das paixões, à qual corresponde a virtude da moderação ou temperança; vem em seguida a alma irascível, que impele à ação e ao valor; sobre elas está a alma racional, que pertence à ordem inteligível e permite ao homem recordar sua existência anterior (teoria da reminiscência) e aceder ao mundo das ideias, mediante o cultivo da filosofia. A alma superior é imortal e retornará à esfera das ideias após a morte do corpo. Tais faculdades ou capacidades da alma se relacionam harmoniosamente por meio da virtude mais importante, o sentimento de justiça, e constituem aspectos de uma única e mesma realidade.

Ética e política

A morte de Sócrates e as experiências políticas na Sicília levaram Platão a verificar que não é possível ser justo na cidade injusta e que a realização da filosofia implica não só a educação do homem, mas a reforma da sociedade e do estado. O sentido da filosofia, o amor da sabedoria, é o de conduzir o homem do mundo das aparências ao mundo da realidade, ou da contemplação das sombras à visão das ideias imutáveis e eternas, iluminadas pela ideia suprema do bem. As concepções éticas e políticas de Platão são um prolongamento natural de sua teoria da alma. Uma vez que o homem acede às ideias por meio da razão e que as ideias são presididas pelo bem, o homem sábio será também necessariamente bom. Para isso, contudo, é preciso que a sociedade reproduza a ordem da alma.

A justiça consiste na relação harmônica entre as partes, sob o cuidado da razão. Por isso, Platão sugeriu em A república, obra em que expõe suas idéias políticas, filosóficas, estéticas e jurídicas, um estado composto por três estamentos: (1) os regentes filósofos, sob o predomínio da alma racional; (2) os guerreiros guardiãs, defensores do estado e cujos valores residem na alma irascível; (3) e a classe inferior dos produtores, regidos pela alma sensível, controlados mediante a temperança.

Platão foi um dos filósofos mais influentes de todos os tempos. Seu pensamento domina a filosofia cristã antiga e medieval. Os ideais estéticos e humanistas do Renascimento constituíram também uma recuperação do platonismo. Há elementos platônicos também em pensadores modernos, como Leibniz e Hegel. Platão morreu em Atenas, em 348 ou 347 a.C., mas continua tão vivo como antes com sua doutrina e ensinamento talvez nunca antes vistos de maneira tão imensa e clara.

Abraço do Benito Pepe

Bibliografia e Referências Bibliográficas

BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. 1. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1997.

CHAUI, Marilena. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles, volume 1. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

ENCICLOPÉDIA, Barsa. Rio de Janeiro – São Paulo: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações, 1994.

MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. 9.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia, v.1.; tradução de Ivo Storniolo; 2.ed. São Paulo: Paulus, 2004.

ZINGANO, Marco. Platão & Aristóteles: o fascínio da filosofia. 2. ed. São Paulo: Odysseus editora, 2005.

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Benito Pepe

Benito Pepe: Empresário por 30 anos, Administrador, Filósofo, Astrônomo Amador, Colunista, Palestrante, Instrutor e Professor Universitário. Tem formação acadêmica na área de Administração com pós-graduações em: Administração estratégica de empresas; Marketing; Filosofia Contemporânea; e Filosofia Antiga. Publica Aqui, seus textos sobre Filosofia, Astronomia, Administração, Marketing, Religião, Assuntos da Atualidade, além de um Papo geral.

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