Entre Mito e a Racionalidade Ocidental

Neste texto vamos abordar sucintamente a questão das concepções de mundo e do mundo, feitas através de compreensões mitológicas ou magias, e as concepções feitas pela razão ou de maneira racional pelo mundo ocidental. Dessa maneira vamos caminhar Entre Mito e a Racionalidade Ocidental. Começamos abordando um pouco sobre as questões mitológicas e perpassamos em uma pequena viagem nessa “história da razão” passando pela ciência da modernidade e fechando com a ciência contemporânea, e dando uma pincelada na física quântica. Trazemos em nossas “considerações finais” uma nova reflexão quanto à possibilidade ou não de haver diálogo entre essa racionalidade ocidental e o mito (ou mythos).

O Mito ou Mythos

A concepção dos povos indígenas quanto a natureza, os animais, a floresta, enfim o seu espaço, está em harmonia, algo similar aos povos antigos antes da filosofia, os chamados “pré-socráticos”. Os mitos, nessa cultura, tanto quanto, em parte, ocorrem na nossa, têm um papel muito importante e especial pois é a maneira em que esses povos (através dos mitos) explicam e pensam sobre si mesmos, sobre o transcendente, a passagem da vida nesta terra, e sobre diversos temas ou situações as quais nós, no mundo ocidental racional e racionalista de hoje buscamos através do que chamamos de ciência.

Assim, os povos e os indivíduos têm no mito um apoio e uma forma de entendimento profundo com os elementos e mistérios da vida. Muitos antropólogos, por exemplo, Mircea Eliade fala quanto a importância do mito em contexto cultural e religioso e reconhece a religião como uma produção cultural. O mito também tem a importância de passar essa cultura de geração em geração, com isso as tradições e o “conhecimento” desses povos são ressignificados e passados à frente. Compreendemos que toda essa história é milenar e como nos lembra Marconi

A religião é um aspecto universal da cultura e, juntamente com a magia, tem despertado o interesse de vários cientistas, desde o século passado.

Todas as populações estudadas pelos antropólogos demonstraram possuir um conjunto de crenças em poderes sobrenaturais de alguma espécie.[1] 

Ademais vemos que as significações e compreensões desses povos, quanto ao mito, não podem ser desprezadas e tidas com o significado que têm no senso comum de nossos dias, ou seja como mentira, pois não as são. Para entendermos esse vocábulo: “mito”, seria melhor transcrevê-lo como mythos da palavra grega e que tem um significado mais próximo a uma forma de discurso quanto ao conhecimento. Como lembro em um texto que falo sobre o Ensino Religioso:

É a partir do mito que surgem as diversas crenças, precisamos esclarecer de antemão que não podemos entender o mito como o senso comum o entende em nosso tempo e o nomeia e compreende. O mito deve ser entendido de maneira mais profunda e preferimos nomeá-lo como Mythos, como se escreve em grego, e dessa maneira entendê-lo como uma “espécie de verdade” algo que fazia e faz parte da vida daquele que crê e tem as explicações mitológicas para a sua crença.[2]

Complemento lembrando que “é a partir do mito que surgem as diversas crenças, tanto quanto as narrativas, tradições, doutrinas, ideias de imortalidade, códigos éticos etc. Esse é um aspecto e dimensão de conduta mitológico religioso”[3]. Como estamos vendo, além de ser um aspecto cultural desse povo, o “mito” é uma visão de mundo que deve ser respeitada e compreendida.

Vamos ver um exemplo de compreensão e visão do mundo através dessa perspectiva mitológica. Alguns dos povos, como os gregos antigos, viam na faixa estrelada que está na direção central de nossa galáxia algo que os seus sentidos e “conhecimento” diziam ser “o leite derramado dos seios de uma deusa”:

Uma larga faixa luminosa que se vê a olho nu nas noites de céu estrelado. Segundo a mitologia grega, originou-se do leite jorrado dos seios de Juno, quando esta amamentou Hércules. Também para a mitologia grega era através da Via-láctea que se chegava ao Olimpo, ficando à direita e à esquerda as habitações dos deuses mais poderosos. É também por onde os heróis entram nos céus.[4]

Os “índios brasileiros”, e diversos povos, viam essa faixa esbranquiçada como “um rio celestial”, o “caminho das almas”, ou “trajetos de animais míticos”. Claro que estes povos buscavam as explicações para o que era visto por seus sentidos como o percebiam através do seu conhecimento. Na verdade, até em nossos dias há quem diga que o Sol nasce e se põe todos os dias, ou até mesmo há quem diga que o “Sol nasce e morre todos os dias”, de fato “nascer e se por” é muito plausível e verdadeiro para os nossos sentidos, pois assim o vemos: “nascendo e se pondo”. No entanto todos que estudam e se informam cientificamente, sabem que é a Terra que se move e gira no seu próprio eixo, nos dando a impressão de que o movimento se dá pelo Sol.

Vamos então ver por outro lado, por uma perspectiva racional e científica. Essa mudança e forma de se ver o mundo também é muito antiga, vem desde os pré-socráticos, passa pela filosofia clássica e se firma na modernidade. Assim passamos de uma “cosmogonia” para uma “cosmologia”[5], seguimos então no próximo tópico com a Racionalidade Ocidental…

Até lá…

Abraços, Benito Pepe

 

[1] MARCONI, Mariana de Andrade; PRESOTTO, Zelia Maria Neves. Antropologia: uma introdução. 6ª ed. – 3ª reimpr. São Paulo: Atlas, 2007. p. 151.

[2] PEPE, Benito dos Santos. Pensar e Refletir. Entendendo um pouco do Ensino Religioso.  Disponível em: https://www.benitopepe.com.br/2024/11/25/entendendo-um-pouco-do-ensino-religioso/ Acesso em: 08 out. 2025.

[3] Ibidem. Mito X Mythos.

[4] VIEIRA, Fernando. Identificação do céu. 3.ed. Rio de Janeiro: Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro, 2002. p. 29.

[5] PEPE, Benito dos Santos. Pensar e Refletir. Do Mito à Filosofia, o caso da Cosmologia.  Disponível em: https://www.benitopepe.com.br/2012/02/20/do-mito-a-filosofia-o-caso-da-cosmologia/ Acesso em: 08 out. 2025.

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