A Racionalidade Ocidental Científica e Cientificista

Como vimos antes, na parte um deste texto, as perspectivas mitológicas e mágicas tentam entender o mundo através de seu conhecimento, da sua verdade, mas começa uma mudança e forma de se entender a razão, e pela razão, um novo paradigma vai surgir. Assim a “história da razão” vai se transformando a tal ponto que surge na modernidade, outra perspectiva, pois:

(…) O recomeço da filosofia nos séculos XVI e XVII está ligado ao aparecimento de um outro contexto, o da ciência. Dessa vez a filosofia não vai alimentar-se da realidade política, mas das transformações profundas da concepção da natureza.[6]

Dessa maneira, a natureza, o homem e o cosmos, passam a ser vistos cientificamente e até mesmo matematizados como ocorre com Galileu Galilei quando diz que “o livro da Natureza está escrito em linguagem matemática”. Assim, com o passar dos anos, a razão e essa racionalidade ocidental científica passa a se propor como a forma de conhecer o mundo. E, de fato, muitas transformações ocorreram e muitas descobertas se fizeram nesse campo em pauta quanto a cosmologia, por exemplo, e muitos paradigmas de outrora foram quebrados.[7]

Assim, o “leite derramado da deusa” e que formou o “caminho do leite” (ou via láctea), na verdade é a visão que temos de dentro da nossa própria galáxia com bilhões de estrelas que nos dão a sensação de nuvens tênues formando um caminho, mas é uma ilusão de ótica formada por essas estrelas distantes, e que nos parecem visualmente como uma faixa de luz contínua.

Não obstante, vamos fazer um contraponto e “pensar e refletir” lembrando um pouco da “física quântica” e da ciência no século XX, como também a “relatividade de Albert Einstein” em que “não podemos ter certeza de tudo”. Dessa maneira, não podemos nos afastar dos “conhecimentos” de outra, no entanto é bom lembrarmos que muito do que era considerado verdade outrora, se sabe hoje que é um mito, por outro lado, também há o que se pensava ser mito e “crendice popular” e a ciência ao analisá-la confirmou ser uma verdade. Exemplos são os medicamentos feitos à base de plantas, como o boldo, por exemplo, entre tantas outras utilizadas pela sabedoria popular passadas de geração em geração, além de muitas “medicinas” desenvolvidas pelos povos nativos do Brasil e de tantos outros, mundo à fora, e que com o passar do tempo têm o seu valor reconhecido pela ciência.

Nesse contexto, e para trazer em pauta um conhecimento que muitos ainda o chamam de mitológico ou metafísico, mas é um estudo científico, como o concebemos em nossos dias, trago para reflexão os estudos de Moreira-Almeida[8] quanto às suas concepções acadêmicos na Universidade de Juiz de Fora (UFJF) as quais são feitas a nível de mestrado e doutorado na temática: “Ciência da Vida após a Morte”, título de um de seus livros.

Este tema ainda é visto por muitos como mito ou algo que tenha a ver só com religião, mas como dissemos acima, muito do que era visto como mito, o deixou de ser com o tempo. E nesse campo de estudo, que trago em pauta, lembro que o mesmo é feito de maneira racional e com a busca de evidências. Não cabe aqui aprofundar a questão, o nosso propósito é tão somente lembrar que após a “crise da modernidade” um novo campo e uma nova reflexão se devem abrir para aquilo que a racionalidade científica, cientificista e a cientificação nos fizeram repensar.

Considerações Finais

Como vimos, os povos originários estão mais ligados à terra e se encontram em uma sintonia e harmonia intrínseca à natureza, se veem como parte deste conjunto e não fora dele, ademais, nós, na verdade, temos muito o que aprender com essas culturas milenares, fomos aos poucos nos distanciando de nossa essência a tal ponto que desprezamos e esquecemos até mesmo o que somos: um ser integral, composto por natureza em diversos aspectos, tanto da matéria da Terra que nos compõe com seus elementos químicos que aí estão, tanto quanto de uma Cultura que nos faz Sermos Humanos como o somos, além de um componente que ainda não temos uma certeza absoluta e científica da sua essência, no entanto sabemos que devemos continuar na busca, a propósito esta é a nossa missão, este é o sentido de nossa vida e é isso que nos faz sermos o que somos: humanos.

Lembro o que diz Laraia quanto ao sistema cultural e a sua lógica própria.

Todo sistema cultural tem sua própria lógica e não passa de um ato primário de etnocentrismo tentar transferir a lógica de um sistema para outro. Infelizmente, a tendência mais comum é de considerar lógico apenas o próprio sistema e atribuir aos demais um alto grau de irracionalismo.[9]

Dessa maneira, quem somos nós para dizermos algo contra outras concepções e formas de ver o mundo? Assim, mito ou Mythos, e Racionalidade, podem e devem dialogar neste mundo contemporâneo pois novas dimensões do conhecimentos podem e devem se abrir, e embora em nosso tempo a racionalidade ainda não esteja plenamente pronta para oferecer explicações sobre os mitos e o sagrado em todos os seus aspectos, e talvez nunca esteja, de qualquer maneira o diálogo e o campo de atuação para o mesmo devem ficar abertos, pois como dissemos antes: “Quem se atreve a ter certeza?”[10]

Terminamos lembrando o que diz Andreeta:

Para que algo possa ser reconhecido como existente para a ciência, é necessário que possua a capacidade de sensibilizar os nossos órgãos de sentido. Quando essa sensibilização não ocorre diretamente, a tecnologia nos fornece meios para que os seus sinais de existência possam ser transformados para serem percebidos pelos nossos sentidos. Na ciência, portanto, nada pode ser descartado definitivamente, pois no futuro, o desenvolvimento de novos equipamentos pode transformar o inexistente em real.[11] (grifo nosso)

Abraços do Benito Pepe

 

Referências Bibliográficas

[6] CHÂTELET, François. Uma história da razão: entrevista com Émile Noel. 1.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994. p. 53.

[7] PEPE, Benito dos Santos. Pensar e Refletir. As influências da Astronomia e a quebra de paradigmas na Modernidade.  Disponível em: https://www.benitopepe.com.br/2012/03/07/as-influencias-da-astronomia-e-a-quebra-de-paradigmas-na-modernidade/ Acesso em: 22 jan. 2026.

[8] Alexandre Moreira-Almeida é professor titular de Psiquiatria, fundador e diretor do NUPES (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde) da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF. É Autor de mais de mais de 170 artigos científicos e capítulos, que receberam mais de 7 mil citações.

[9] LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um Conceito Antropológico.  1. ed. 33 impr. Rio de Janeiro: Zahar, 2023. p. 87.

[10] “Quem se atreve a ter Certeza?” É o título de um Livro de Andreeta em que ele aborda a temática quanto a física quântica e o princípio da incerteza, entre aspectos míticos, filosóficos, antropológicos e científicos, os autores fazem uma viagem instigante. ANDREETA, José Pedro. Quem se atreve a ter Certeza? A Realidade Quântica e a Filosofia. São Paulo: Mercuryo, 2004.

[11] ANDREETA, José Pedro. Quem se atreve a ter Certeza? A Realidade Quântica e a Filosofia. São Paulo: Mercuryo, 2004. p.35.

Bibliografia  

ANDREETA, José Pedro. Quem se atreve a ter Certeza? A Realidade Quântica e a Filosofia. São Paulo: Mercuryo, 2004.

CHÂTELET, François. Uma história da razão: entrevista com Émile Noel. 1.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um Conceito Antropológico.  1. ed. 33 impr. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.

MARCONI, Mariana de Andrade; PRESOTTO, Zelia Maria Neves. Antropologia: uma introdução. 6. ed. – 3ª reimpr. São Paulo: Atlas, 2007.

MOREIRA-ALMEIDA, Alexander; COSTA, Mariana de Abreu; COELHO, Humberto Schubert.  Ciência da Vida após a Morte. 1. Ed. Belo Horizonte, MG: Editora Ampla, 2023.

PEPE, Benito dos Santos. Pensar e Refletir. Entendendo um pouco do Ensino Religioso.  Disponível em: https://www.benitopepe.com.br/2024/11/25/entendendo-um-pouco-do-ensino-religioso/ Acesso em: 22 jan. 2026.

____________________________________. Do Mito à Filosofia, o caso da Cosmologia.  Disponível em: https://www.benitopepe.com.br/2012/02/20/do-mito-a-filosofia-o-caso-da-cosmologia/ Acesso em: 22 jan. 2026.

___________________________________. As influências da Astronomia e a quebra de paradigmas na Modernidade.  Disponível em: https://www.benitopepe.com.br/2012/03/07/as-influencias-da-astronomia-e-a-quebra-de-paradigmas-na-modernidade/ Acesso em: 22 jan. 2026.

SELL, Carlos Eduardo. Racionalidade e Racionalização em Max Weber. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v.27, n.79, jun., 2012. p.153-155; p.162-167. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbcsoc/a/dfHssfC47pSqrtW5Fgzwb9f/?format=pdf&lang=pt Acesso em: 22 jan. 2026.

VIEIRA, Fernando. Identificação do céu. 3.ed. Rio de Janeiro: Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro, 2002.

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