O estruturalismo na antropologia e a etnoastronomia (1.3)

Continuando o texto…

Um dos nomes a se destacar no que tange ao estruturalismo e principalmente na antropologia é Lévi-Strauss (1908-) que segundo cita Reale (2006) teve a seguinte intuição: “as ciências humanas, e a antropologia em particular, não podem continuar indiferentes diante dos sucessos da lingüística; devem adotar seus métodos”. (p.84)

Lévi-Strauss aplicou o método estruturalista em dois pontos principais: nos estudos de relações de parentesco e nos mitos de povos primitivos, ditos como povos sem “história”.

Foi assim que em As estruturas elementares do parentesco (1949), logo após a 2* guerra mundial, sobre a base de uma analogia de método e de objeto entre lingüística e antropologia, olha a sociedade como conjunto de indivíduos colocados em comunicação por meio de diversos aspectos da cultura. Assim as regras de matrimônio e os sistemas de parentesco são considerados como uma espécie de linguagem. E a mensagem é constituída “pelas mulheres do grupo que circulam entre os clãs, as estirpes e as famílias”. Lévi-Strauss citado por Reale (p.84).

Como dito Lévi-Strauss também menciona as questões mitológicas. Ele analisa milhares de mitos nas mais variadas sociedades humanas encontrando nelas modos de construção análoga em todas. Ele as entendeu como recursos de uma narrativa da história tribal, como expressões legítimas de manifestações de desejos e projeções ocultas, todas elas merecedoras de serem admitidas no papel de matéria-prima antropológica. E Lévi-Strauss conclui que existem estruturas “psico-lógicas” profundas, estruturas elementares do pensamento humano contido em todas as sociedades independente da raça, clima ou religião seguida.

“A antropologia e as ciências etnográficas põem a nu sistemas compactos de regras, valores, idéias e mitos que nos plasmam desde o nascimento e nos acompanham até o túmulo.” Reale (p.83).

Como cita Reale (2006) – Lévi-Strauss dirá em Tristes trópicos (1955) e também em Antropologia estrutural, “que a vida dos primitivos é melhor, mais autêntica e mais harmonizada com a natureza do que a dos povos civilizados” (p.86). Gostaríamos de completar lembrando que estes povos chamados “primitivos” já tinham uma harmonia muito estreita não só com a natureza nossa mãe e confinante próxima, mas também com o Cosmos distante, como podemos observar através de exemplos diversos em etnoastronomia ou “astronomia antropológica” que é o estudo que observa como os diversos povos vêem e interpretam os movimentos celestes. As concepções sobre o Universo destes grupos étnicos e culturais chamados “primitivos” e que vêem o mundo de um modo diferente do ocidental, e que às vezes fazem muito mais sentido do que a fria ciência astronômica.

Citando alguns exemplos da utilidade que estes povos faziam das observações astronômicas poderíamos mencionar um “Tablete” que servia a um principio prático: instruir as mulheres sobre os períodos mais adequados para uma gravidez evitando-se assim que a gravidez fosse terminar durante períodos de migração entre o abrigo de verão e o de inverno daquele agrupamento humano; delimitar os períodos favoráveis à agricultura; obter um sistema de localização através do céu; e acima de tudo cria-se um embrião no homem para o maior espanto de todos os espantos o esplendor provocado pelo encantamento do universo.

Naturalmente o calendário surge desta observação da “passagem do tempo” e das configurações observadas entre o céu e a natureza. Mas, como nos diz Tapenaiky professor wayampi (uma sociedade indígena brasileira) “O calendário dos brancos parece um quadrado cheio de números. Os brancos só mudam os números. O calendário wayampi é redondo e só com palavras, com nomes de animais e de frutas marcando o tempo, por exemplo, o tempo da bacaba ou o tempo do açaí”. (1)

Na Etnoastronomia e também na etnolinguistica verificamos como a nossa visão do mundo depende de nossa linguagem.

Hoje se sabe que as mesmas técnicas que nos proporciona observar as profundezas cósmicas, paradoxalmente nos impedem de ver as estrelas com a tal poluição luminosa, e além do mais toda a conseqüência gerada pelas diversas técnicas e tecnologias do mundo ocidental nos fazem esquecer o Céu por não podermos observá-lo com a naturalidade de outrora. Mas este olhar para o céu foi uma das atividades mais nobres exercidas pelo ser humano, e possivelmente foi ela que nos fascinou a ponto de gerar o produto cultural que chamamos de ciência. Há milênios nasceu a astronomia a mais antiga de todas as ciências.

A importância ou não do pensamento científico segundo Lévi-Strauss:

De fato, na história da humanidade aconteceu um fenômeno importante, capital, que é o nascimento do pensamento científico e seu desenvolvimento. Esse fato é um valor intrínseco, em si mesmo, que eu realmente coloco fora do relativismo cultural. Agora, se você olha as coisas um pouco mais do alto, dirá que esse pensamento científico que respeitamos e que nos apaixona em seus progressos passo a passo, que se efetua no decorrer dos séculos, anos ou dias, é na realidade profundamente vão. Já que o que nos ensina é, ao mesmo tempo, a melhor compreender as coisas em seus detalhes e que não podemos jamais compreender na totalidade, no conjunto.

O pensamento científico, ao mesmo tempo que alimenta nossa reflexão e aumenta nossos conhecimentos, mostra a insignificância última desse conhecimento. Depende do seu ponto de vista e do nível, que é o nosso, o do homem do século XX, do mundo ocidental, o pensamento científico é algo essencial, fundamental, e devemos utilizá–lo. Porém, se nos tornamos metafísicos, diremos que de fato ele é essencial, mas ao mesmo tempo é preciso saber que não serve para nada.

Podemos perceber com essas palavras que Lévi-Strauss deixa claro que há outros valores e importância maior para a vida. Não elimina a necessidade da ciência mas não lhe dá importância suprema como muitos o fazem. Os mitos e “donos” da “verdade” não podem ser transferidos de magistérios, antes a religião agora a ciência, acreditamos que não. Mas sabemos da importância da Astronomia em todos os tempos, talvez um dos caminhos para o estudo de nossa origem cósmica.

Abraços do Benito Pepe

No próximo tópico: O estruturalismo na Filosofia

Referências Bibliográficas:

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia, Vl 7: de Freud à atualidade; tradução de Ivo Storniolo; 1.ed. São Paulo: Paulus, 2006.


Notas:

(1) Tapenaiky, na reportagem de Luiz Carlos Borges, in SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, n* 12 Edição especial – Etnoastronomia, p.40.

(2) Lévi-Strauss, em entrevista à Bernardo Carvalho, in FOLHA DE S. PAULO, 22 de outubro de 1989.

Benito Pepe

Benito Pepe: Empresário há mais de 30 anos, Administrador, Filósofo, Astrônomo Amador, Colunista, Palestrante, Instrutor e Professor Universitário. Tem formação acadêmica na área de Administração com pós-graduações em: Administração estratégica de empresas; Marketing; Filosofia Contemporânea; e Filosofia Antiga. Publica Aqui, seus textos sobre Filosofia, Astronomia, Administração, Marketing, Religião, Assuntos da Atualidade, além de um Papo geral.

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