A Astronomia e o esquecimento do Céu (4.3)

Ainda no texto: A Filosofia e a Astronomia…

Em nossos dias, da mesma forma que é mais “fácil” estar aí jogado esquecendo o ser e se ocupando em várias atividades e coisas do dia a dia como: trabalho, assistindo à Televisão, indo ao cinema, teatro, “baladas” e outras tantas e diversas atividades; da mesma maneira se esquece o Céu, se esquece o universo, se ocupando com tantas “atividades noturnas”. Assim perdemos o sentido de nossa origem. Conforme comenta Brockelman:

O que perdemos, portanto, foi a habilidade de ver nossa vida como parte de uma ordem e uma realidade mais amplas, para além de nossos transitórios desejos e sonhos diários. Ao ver a natureza e todo o universo como uma “matéria” posta aqui para nossa transformação e uso infinitamente produtivos, reduzimos a realidade a um mero valor extrínseco para nós; ela não é mais vivenciada como intrinsecamente valiosa em si. Por conseqüência, perdemos todo senso de pertencer a um drama e a uma realidade mais vastos e significativos. (2001, p.23)

Ocorre uma perda, um esquecimento desta nossa origem cósmica. Uma das maneiras que teríamos para nos aproximar um pouco dela seria o estudo da nova cosmologia, conforme diz Brockelman, há

(…) uma realidade além de nós e que, entretanto, nos inclui. A cosmologia permite um vislumbre dessa realidade mais ampla ao mostrar que a natureza é o resultado de um mistério originador ou do que Vaclav Havel chama o “milagre do Ser” que brilha através dela. (2001, p.82).

Mas hoje em dia é difícil encontrar uma pessoa que se envolva com a astronomia, eu digo envolva no sentido mais profundo da palavra, no sentido mesmo de submergir. Isto se dá, por três motivos principais: 1) as pessoas buscam normalmente se envolver com coisas que não as façam pensar muito (querem o lazer simples e despreocupado); 2) muitas vezes buscam algo que possa trazer retorno financeiro e não vêem na astronomia algo com esta possibilidade (principalmente no Brasil); 3) com tanta poluição luminosa em nossas cidades é praticamente impossível se observar o Céu. (isto só ocorre quando viajamos para cidades distantes das grandes metrópoles).

E é neste terceiro ponto que gostaríamos de nos ater. Heidegger menciona o esquecimento do Ser através do tempo no mundo ocidental, como já comentamos anteriormente. Mas gostaria de evidenciar: nós esquecemos o Ser, porque nos ocupamos demais com tantas e tantas atividades provindas da técnica; nós esquecemos o cosmos, o universo, o Céu porque desenvolvemos uma técnica que da mesma forma e paradoxalmente que nos aprofundou nos confins do universo, “desenvolve” no planeta e na atmosfera da Terra, tanta e tanta poluição de todos os níveis que não nos permitem “ver” a noite, aqui destacamos a poluição luminosa.

Nós somos morcegos que erroneamente iluminamos o nosso Céu e assim na verdade o “apagamos”, o ofuscamos. Nós precisávamos do Céu para nossa “busca noturna” mas com tanta luz perdemos esta possibilidade e com isso veio a “fome” e o esquecimento do cosmos, nossa origem.

Como supomos hoje através dos “conhecimentos” de astronomia, e como dissemos, foi através de mortes e ressurgimentos de algumas estrelas: “poeiras” que formam estrelas que ao morrer tornam-se novamente poeiras “encontrando-se” com outras que com elementos químicos cada vez mais complexos formam novas estrelas. Portanto o nosso Sol e todo o sistema solar assim fora formado. Em outras palavras nós somos “poeira das estrelas”, e assim sendo não há dúvidas que nossa origem é cósmica, nós viemos deste vasto, imenso, infinito ou finito universo, que tem aproximadamente 13,7 bilhões de anos desde o chamado Big Bang. E da mesma forma que é espantoso, que é um verdadeiro thauma relatar mitos da criação através das diversas religiões, é da mesma maneira um verdadeiro espanto os relatos da nova cosmologia, conforme diz Dennis Overbye citado por Brockelman:

O que poderia aproximar mais do caráter de mito do que a noção de que o universo de fato apareceu, talvez do nada; de que os átomos em nossos ossos e sangue foram formados em estrelas a anos-luz de distancia e bilhões de anos atrás; ou de que as partículas ainda mais antigas de que são compostos esses átomos são fósseis de energias e forças que existiram durante o primeiro microssegundo da criação, as quais mal podemos compreender? Somos todos artefatos do universo, lembranças andantes do mistério último. Somos poeiras andantes, poeiras de estrelas andantes. (2001, p.93).

Mas o nosso questionamento é: se nós nos esquecemos do sentido do Ser, será que nós nos preocuparemos com esta nossa origem? Cito novamente na íntegra o trecho do Kant mencionado por Châtelet, pois me parece profundamente relevante para esta monografia; Kant diz

Duas coisas enchem o coração de admiração e veneração, sempre novas e sempre crescentes, à medida que a reflexão se dirige e se consagra a elas: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim (…) o primeiro espetáculo, de uma inumerável multidão de mundos, aniquila, por assim dizer a minha importância, por ser eu uma criatura animal que deve voltar à matéria de que é formado o planeta (um simples ponto no Universo) depois de (não se sabe como) ter sido dotada de força vital durante curto espaço de tempo. O segundo espetáculo ao contrário eleva infinitamente o meu valor, como o de uma inteligência por minha personalidade, na qual a lei moral me manifesta uma vida independente da animalidade e até mesmo de todo o mundo sensível. (1994, p.102).

Este deslumbramento já ocorre há tempos imemoriáveis. Poderíamos citar os diversos povos do oriente que se fascinavam muito com o cosmos: os chineses, babilônios, assírios e egípcios; e também povos aqui das Américas como: os Maias, os Incas e mesmo nossos índios e outros povos chamados “primitivos”; que já se preocupavam e se ocupavam com a observação do Céu, mas vieram os nossos dias e novas ocupações surgiram, a técnica faz com que possamos nos aprofundar no mais distante do cosmos e ao mesmo tempo faz o povo esquecer deste Céu…

Abraços do

Benito Pepe

No próximo tópico apresento minhas Considerações Finais.

Referências Bibliográficas

BROCKELMAN, Paul. Cosmologia e criação: a importância espiritual da cosmologia contemporânea. 1.ed. São Paulo: Edições Loyola, 2001.

CHÂTELET, François. Uma história da razão: entrevista com Émile Noel. 1.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

Benito Pepe

Benito Pepe: Empresário há mais de 30 anos, Administrador, Filósofo, Astrônomo Amador, Colunista, Palestrante, Instrutor e Professor Universitário. Tem formação acadêmica na área de Administração com pós-graduações em: Administração estratégica de empresas; Marketing; Filosofia Contemporânea; e Filosofia Antiga. Publica Aqui, seus textos sobre Filosofia, Astronomia, Administração, Marketing, Religião, Assuntos da Atualidade, além de um Papo geral.

4 comentários em “A Astronomia e o esquecimento do Céu (4.3)

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