Obras e doutrinas; de Aristóteles – uma introdução

Esta é uma continuação do Texto: Aristóteles…
Antes de citarmos algumas das obras de Aristóteles precisamos lembrar que havia dois tipos básicos de textos: os escritos para o público em geral, ou seja as obras com o intuito de publicação para “fora da escola”, os escritos “exotéricos”, que eram normalmente em forma de diálogos; e os textos para os alunos do Liceu, ou seja “material de aula”, os “esotéricos”, esses portanto seriam escritos didáticos destinados aos seus discípulos.

Perderam-se quase todas as obras publicadas por Aristóteles, com exceção da Constituição de Atenas, descoberta em 1890. As obras conhecidas resultaram de notas para cursos e conferências do filósofo, ordenadas de início por alguns discípulos e depois, de forma mais sistemática, por Andronico de Rodes (c. 50 a.C.).

Sendo os escritos exotéricos perdidos em grande parte, foram os escritos esotéricos, os que em sua maioria, permaneceram até os dias de hoje. Estes tratam da problemática filosófica e de alguns ramos das ciências naturais.

Quanto às “ciências” ou o “conhecimento”, Aristóteles os divide da seguinte maneira, como está contido no livro, Metafísica, 1025b25:

Os conhecimentos Práticos (práxis); os Produtivos (poiesis) e os Teóricos.

Quanto ao conhecimento Teórico, se divide por um lado em: Física que está no campo das “Ciências Naturais”, e por outro lado em Matemática (quantidade, número) e Filosofia Primeira (teologia) estas duas ultimas estão no campo das “ciências gerais”.

Portanto a filosofia primeira, posteriormente chamada de metafísica, ou ontologia (termo que vem depois, para tratar do ser enquanto ser), inclui a teologia o ser imóvel, a causa primeira, o “primeiro motor”.

Dessa maneira podemos perceber que apesar de sua aptidão à cientificidade, Aristóteles colocava a Física em “segundo lugar”, chamando de filosofia primeira justamente a teologia e a ontologia. Mas quanto a ontologia (= discurso do ser; onto – ser, logia – discurso), para Aristóteles não haveria um discurso único. “O ser se diz em múltiplos sentidos”.

Como nenhum filósofo antes dele, Aristóteles compreendeu a necessidade de integrar o pensamento anterior a sua própria pesquisa. Por isso começa procurando resolver o problema do conhecimento do ser a partir das antinomias acumuladas por seus predecessores: unidade e multiplicidade, percepção intelectual e percepção sensível, identidade e mudança. Problemas fundamentais, ao mesmo tempo, do ser e do conhecimento.

De qualquer maneira para Aristóteles existe um Ser separado da matéria e imóvel, é ele o primeiro motor, o Deus de Aristóteles.

“Diferenças” entre Platão e Aristóteles

Para entendermos Aristóteles é importante fazermos algumas distinções entre ele e seu mestre Platão. Uma das principais críticas de Aristóteles quanto a Platão, consiste na rejeição do dualismo representado pela teoria das ideas, como se vê na Metafísica 1, caps. 6 e 9; XII e XIV.

Uma das questões que Aristóteles levanta é a problemática de se relacionar o mundo material (ou sensível) com o mundo das ideas (o mundo inteligível).

Diferentemente do dualismo platônico, em que o mundo da inteligência era separado do das coisas sensíveis, mas que visava antes de tudo a “salvar a ciência”, estabelecendo a coerência necessária entre o conceito e seu objeto. O realismo de Aristóteles procura restabelecer essa coerência sem abandonar o mundo sensível: explora a experiência, e nela mesma insere o dualismo entre o inteligível e o sensível.

O projeto de Aristóteles visa em última análise restabelecer a unidade do homem consigo mesmo e com o mundo, tanto quanto o projeto de Platão, baseado numa visão do cosmos. Entretanto, Aristóteles censura a Platão por ter seguido um caminho ilusório, que retira a natureza do alcance da ciência. Aristóteles procura apoio na psicologia. O ser existe diferentemente na inteligência e nas coisas, mas o intelecto ativo, que é atributo da primeira (a inteligência), capta nas últimas (as coisas) o que elas têm de inteligível, estabelecendo-se dessa forma um plano de homogeneidade.

Das “diferenças” entre Platão e Aristóteles, Reale nos lembra que:

Nas obras ‘esotéricas”, Aristóteles deixou de lado o componente místico-religioso-escatológico que era tão forte nos escritos do mestre (…) E que (…) Platão tinha interesse pelas ciências matemáticas, mas não pelas ciências empíricas (com exceção da medicina). (2004, p.191-2).

Podemos mencionar também o que lembra Zingano: “Platão, filósofo literário; Aristóteles, argumentador de rara precisão. Platão idealista; Aristóteles, investigador da natureza”. (2005, p.62).

Não obstante ao que foi narrado acima, é bom lembra que, conforme lembra Blackburn:

(…) os acadêmicos, de forma geral, rejeitam que a obra de Aristóteles tenha se afastado de um platonismo originalmente aceito, chegando mesmo a ver em sua metafísica tardia um retorno a Platão. (1997, p.25)

Visto isso podemos agora citar e posteriormente comentar sucintamente algumas das “matérias” do grande filósofo Aristóteles.

As principais obras de Aristóteles, agrupadas por matérias, são:

(1) Lógica (que constituem o Órganon): Categorias (propõe uma classificação geral em dez classes de tudo o que existe), Da interpretação, Primeiros Analíticos (contém a doutrina das inferências silogísticas e representam a parte teórica mais madura da doutrina lógica aristotélica) e segundos analíticos (dizem respeito sobretudo a problemas de filosofia da lógica e de metodologia), Tópicos, Refutações dos sofistas;
(2) Filosofia da natureza: Física, Do Céu, Da geração e da corrupção;
(3) Psicologia e antropologia: Sobre a alma, além de um conjunto de pequenos tratados físicos;
(4) Zoologia: Sobre a história dos animais;
(5) Metafísica: Metafísica (obra mais famosa, contém 14 livros);
(6) Ética: Ética a Nicômaco, Grande ética, Ética a Eudêmia;
(7) Política: Política, Econômica;
(8) Retórica e poética: Retórica, Poética.

Referências bibliográficas deste tópico. A Bibliografia completa será apresentada no final deste texto.

BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. 1. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1997.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia, v.1.; tradução de Ivo Storniolo; 2.ed. São Paulo: Paulus, 2004.

ZINGANO, Marco. Platão & Aristóteles: o fascínio da filosofia. 2. ed. São Paulo: Odysseus editora, 2005.

Benito Pepe

Benito Pepe: Empresário há mais de 30 anos, Administrador, Filósofo, Astrônomo Amador, Colunista, Palestrante, Instrutor e Professor Universitário. Tem formação acadêmica na área de Administração com pós-graduações em: Administração estratégica de empresas; Marketing; Filosofia Contemporânea; e Filosofia Antiga. Publica Aqui, seus textos sobre Filosofia, Astronomia, Administração, Marketing, Religião, Assuntos da Atualidade, além de um Papo geral.

13 comentários em “Obras e doutrinas; de Aristóteles – uma introdução

  • Pingback:Aristóteles, uma Visão Geral de sua obra e "doutrina"

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    isto e muito complicado para mim pois e dificil para jovens como eu entender apesar de estar bem esplicado

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    Olá Jessica, se eu puder te ajudar em alguma dúvida será um prazer, pode ser específica no que você não entendeu?

    Abraços do Benito Pepe

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    pois eu sigo as obra e pensamentos de [red]platãoooooooo

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    eu adimiro platãoo

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    Olá Erika, obrigado pelos comentários. Eu também admiro muito a Platão, acho suas doutrinas e pensamentos maravilhosos, mas não deixo de admirar seus discípulos como o Aristóteles, e tantos outros que até hoje, de alguma maneira são platônicos, ademais mesmo os filósofos que tenham alguma antítese com relação a Platão devem ser ouvidos e porque não admirados. A filosofia é uma multiplicidade de pensamentos e não há um melhor nem um pior, há isso sim, pensamentos…

    Você deve ter observado que tenho aqui neste site/blog textos sobre Platão também, os visite e deixe seu parecer lá, valeu?

    Abraços do Benito Pepe

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    gostaria de saber se o ser de moises e o ser de parmenides sao o mesmo. porque parmenides é tao escondido na filosofia se foi ele que descobriu o ser?

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    Olá Paulo, Moisés e o Ser de Parmênides, em princípio não tem nada a ver. Na verdade Parmênides não é escondido na filosofia, muito pelo contrário quem estuda filosofia certamente vai ouvir falar e estudar os pré-socráticos e entre eles não se pode deixar de ver Parmênides e Heráclito por exemplo, aliás veja o meu texto sobre eles neste link>> http://www.benitopepe.com.br/2009/04/10/parmenides-e-heraclito/

    Vou postar este teu questionamento lá nesta postagem também.

    Abraços do Benito Pepe

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    não entendo, os filosofos tentam saber de tudo e acabam sabendo que não sabem de nada?! me ajude……

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    Olá Jessica, é isso mesmo! Quem procura “saber de tudo” cedo ou tarde percebe que não sabe de nada. Assim é para tudo na vida, quando você não sabe muito de um assunto você pensa que sabe tudo… E quando você começa a estudar aquele assunto você vai notando que tem mais e mais a aprender, dessa maneira você toma consciência que não sabe sobre o que você pensava saber. O bom disso é que ao menos você passa a saber que não sabe…
    Isso se passa também com as religiões, quando começamos a estudá-las vamos perdendo os nossos pré-conceitos e vamos percebendo que devemos respeitar todas as denominações religiosas muitas inclusive são milenares e merecem todo o nosso respeito.
    Veja também este meu texto>> http://www.benitopepe.com.br/2010/05/09/socrates-%e2%80%9cso-sei-que-nada-sei%e2%80%9d/

    Abraços, Benito Pepe

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    preciso fazer um trabalho enumerando algumas das obras de Aristótele,mas ñ to conseguindo,pode me ajudar?

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    Olá Janaina é exatamente isso que fala esse texto… Veja também a sequência dele ok?
    Abraços, Benito Pepe

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