O trabalho outrora era mais romântico

Um dia desses estava conversando com meu primo Alfredo (para quem dedico este texto) e lembrávamos como era o trabalho outrora. Ele dizia que há alguns anos atrás, um atendente de balcão levava em média o triplo ou mais vezes o tempo que toma hoje com cada cliente. Muitas atividades outrora eram mais românticas: pisar as uvas, atender um cliente no balcão, ir ao banco, entrar e sair da empresa. Era tudo mais romântico.

O balconista ouvia o cliente, procurava em um catálogo feito em papel a tal peça requisitada, ia ao estoque verificar a disponibilidade da mesma, trazia a peça, tirava a nota fiscal feita à mão, recebia o cartão de crédito do cliente e ia verificar em uma listagem se o “cartão era bom” aí poderia ou não aceita-lo. Depois de aceito o cartão enviava ao caixa que iria fazer a cobrança e aí liberava o produto.

Esse processo era demorado, mas permitia uma interação mais longa com o cliente. Hoje ao contrário, um cliente chega ao balcão, solicita uma peça, o vendedor verifica no computador e tem a resposta imediata da disponibilidade ou não em estoque. Confirmado que tem a peça, pede ao cliente que vá ao caixa efetuar o pagamento e ao mesmo tempo o vendedor busca o produto, ao cliente retornar do caixa já leva sua peça.

Todo este processo é feito em três, quatro ou cinco vezes menos tempo, do que outrora.

Antigamente quando fabricávamos nosso vinho ele era feito de maneira artesanal, pisávamos nossas uvas e confraternizávamo-nos em uma cerimônia quase religiosa e romântica. Hoje são as máquinas que fazem nosso vinho. O vinho outrora era mais romântico…

Outro fato que lembramos foi o simples ato de ir ao centro da cidade. Quando uma pessoa dizia vou a centro da cidade resolver tal problema, já se sabia, seria um dia ou parte do dia “livre” só e exclusivo para resolver o tal problema na cidade. Não havia celular para nos localizar onde estávamos. Nós estávamos de fato onde estávamos. Hoje ao contrário com o tal aparelhinho, você “esteja onde estiver não estará onde está”. Você não se “desliga” do local de trabalho, por exemplo.

Ir ao banco era, da mesma maneira, um trabalho romântico. A pessoa dizia vou ao banco e naquele momento estava no banco e só no banco. O celular não estava lá conosco, ele não existia. Muitos hoje dizem: “eu não consigo viver sem meu celular, nele está a minha vida.” Isso se passa porque os aparelhos celulares modernos não são só um aparelho telefônico, são verdadeiros computadores com centenas de possibilidades. Ir à cidade ou ao banco era mais romântico outrora.

Em falar em ir ao banco, curioso mesmo era ir ao banco no início do século passado, o sujeito ia ao banco e era atendido até mesmo pelo próprio dono do banco que fazia um documento escrito à mão com o registro da importância ali depositada.

É claro que os tempos mudam, e devem mudar mesmo, não estamos com melancolia e nem saudosismo, estamos apenas relembrando uma época em que o trabalho era mais romântico.

É lógico e bom que haja evoluções, se assim não fosse nós ainda estaríamos acendendo fogo batendo uma pedra na outra ou friccionando gravetos de madeira, etc.

A evolução e o progresso fazem parte da humanidade e é bom que assim seja. O problema é que esta evolução está em uma velocidade progressivamente geométrica e a mente humana em uma evolução aritmética.  A evolução da tecnologia e o desenvolvimento econômico-social evoluem muito mais do que a maioria das pessoas podem acompanhar.

Nos dias de hoje não há um profissional que consiga ser capaz de conhecer na “palma de sua mão” todos os seus produtos e processos, como ocorria outrora. Porém com toda tecnologia à sua disposição e “em suas mãos”, ele têm toda a sua empresa, seus processos e seus produtos “à sua frente” em um estalar de dedos.

A tecnologia e os aparatos eletrônicos podem fazer com que saibamos como anda nossa empresa, estejamos onde estivermos. As câmeras de vídeo que mostram vários pontos de nossas empresas podem ser acessadas pela internet de qualquer lugar do mundo, estejamos onde estivermos e mesmo de férias. Mas que férias hem?

Há pessoas que dizem: “agora eu vou trabalhar em casa, e vou sossegar”. Que vã ilusão, antes íamos para nossas empresas e estávamos lá no horário comercial, ao sair de lá, saíamos mesmo. Hoje temos celular, e-mail, câmeras de vídeo, seguro que telefona automaticamente para nosso celular avisando de alguma possibilidade de sinistro, etc. Entrar e sair da empresa eram momentos mais românticos. O trabalho outrora era mais romântico.

Hoje há quem diga: “agora o trabalho é mais fácil, a máquina nos ajuda.” É verdade, a máquina nos ajuda a trabalhar mais e com mais intensidade, podemos fazer muito mais coisas com o mesmo tempo de antes e ainda reclamamos que “o tempo está passando mais rápido. Por que não temos tempo de sobra como antes?

Não é o tempo que está passando mais rápido, é o excesso de atividades, a rotina frenética, a quantidade infinita de possibilidades e atrativos que temos à nossa disposição, é isso que nos dá a sensação psicológica que o tempo é curto e que está passando mais rápido.

O tempo sempre foi o mesmo, 24 horas hoje, 24 horas ontem… Engraçado é que levávamos uma infinidade de tempo para fazer as mesmas atividades que hoje podemos fazer em até segundos, como por exemplo, pegar um extrato de nossa conta corrente, hoje pela Internet.

Levávamos muito mais tempo para fazer nossas tarefas no trabalho, no entanto tínhamos menos tarefas. A mesma parafernália tecnológica que nos propicia ter nossa empresa em nossas mãos, nos faz trabalhar mais dentro e fora dela.

Querido contemporâneo, o trabalho outrora era mais romântico. Antes era um namoro, agora é um casamento…

Abraços do Benito Pepe

Benito Pepe

Benito Pepe: Empresário há mais de 30 anos, Administrador, Filósofo, Astrônomo Amador, Colunista, Palestrante, Instrutor e Professor Universitário. Tem formação acadêmica na área de Administração com pós-graduações em: Administração estratégica de empresas; Marketing; Filosofia Contemporânea; e Filosofia Antiga. Publica Aqui, seus textos sobre Filosofia, Astronomia, Administração, Marketing, Religião, Assuntos da Atualidade, além de um Papo geral.

2 comentários em “O trabalho outrora era mais romântico

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    Olá meu camarada, você tocou no meu ponto fraco, com este texto. Claro que tudo de antigamento era mais rommântico que hoje, vejamos! cantar tambem sempre foi, e sempre será uma profissão. E o cantor profissional cantava assim;
    Dio come ti amo
    Non é possibile
    Avere fra le braccia
    Tanta felicità…. Etc.

    Ou então caantava assim;
    Tú és divina e graciosa
    Estátua magestosa…
    Do amor por Deus esculturada
    Formada com ardor
    Da alma da mais linda Flôr
    Do mais ativo olôr
    Que na vida
    És preferida pelo beija flôr…Etc.
    Hoje o sujeito canta o Fank assim;
    Ela é gostosa
    É pouposuda
    Vamos pra cama
    Toma safada…. E por aí afora.
    Antigamente você chegava no armazem, pedia um quilo de qualquer produto, feijão arroz etc. O patricio pegava a concha ia na saca desejada, colocava o respectivo peso na balança de dois pratos, ia enchendo o saquinho até que o prato descesse, era tudo pesado na sua frente no ato da compra, mas hoje, como não pode haver retrocesso, ante a força do progresso, está tudo mudado.
    Hoje, em qualquer lugar que você for comprar qualquer coisa, existe o famoso código de barra, que daqui a pouco tempo até os humanos vão ser identificados pelo mesmo.
    Claro que não podemos ficar parados no tempo, pois desde o fim da Idade Média e o princípio do Renassimento que o mundo vem evoluindo, e quando entramos na era da informática, e da tecnológia digital, quando é possivel o sujeito do seu pequenino celular, verificar sua conta bancária e muitas outras coisas, só podemos achar romântismo nisto, é que,. a patrôa do cara, está à vigia-lo, tambem do seu pequenino celular cor de rosa celular aí é uma briga de foice, porque um quer saber onde está o outro, que româmtico ‘NEM’.
    Meu camarada, vou parar um pouco com os comentário pois estou me mudando para outra casa que comprei, e sou obrigado a desligar a internet.
    Mas em breve estarei de volta aquele abraço, e uma chuva de Benção do nosso Mestre e de sua Bendita Mãe Maria Nossa Senhora.

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    Olá meu grande camarada JM Dias, que a sua mudança seja breve e você volte aos comentários com todo o “vapor”, quero dizer com todo o “gás”, ou seja lá com qual energia for ehehe

    Eu já estava com saudades de seus deliciosos e inteligentes comentários. Volte logo…

    Abraços do Benito Pepe

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