O esquecimento de nossa origem Cósmica

Continuando o texto > Heidegger e os Gregos: o Ser e o Céu

 

 

Em nossos dias, da mesma forma que é mais “fácil” estar aí jogado esquecendo o ser e se ocupando em várias atividades e coisas do dia a dia como: trabalho, assistindo à Televisão, indo ao cinema, teatro, “baladas” e outras tantas e diversas atividades; da mesma maneira se esquece o Céu, se esquece o universo, se ocupando com tantas “atividades noturnas”. Assim perdemos o sentido de nossa origem. Conforme comenta Brockelman:

O que perdemos, portanto, foi a habilidade de ver nossa vida como parte de uma ordem e uma realidade mais amplas, para além de nossos transitórios desejos e sonhos diários. Ao ver  a natureza e todo o universo como uma “matéria” posta aqui para nossa transformação e uso infinitamente produtivos, reduzimos a realidade a um mero valor extrínseco para nós; ela não é mais vivenciada como intrinsecamente valiosa em si. Por conseqüência, perdemos todo senso de pertencer a um drama e a uma realidade mais vastos e significativos. (2001, p.23)

Ocorre uma perda, um esquecimento desta nossa origem cósmica. Uma das maneiras que teríamos para nos aproximar um pouco dela seria o estudo da Nova Cosmologia, conforme diz  Brockelman há

(…) uma realidade além de nós e que, entretanto,  nos inclui. A cosmologia permite um vislumbre dessa realidade mais ampla ao mostrar que a natureza é o resultado de um mistério originador ou do que Vaclav Havel chama o “milagre do Ser” que brilha através dela. (2001, p.82).

Mas hoje em dia é difícil encontrar uma pessoa que se envolva com a astronomia, eu digo envolva no sentido mais profundo da palavra, no sentido mesmo de submergir. Isto se dá,  por três motivos principais: 1) as pessoas buscam normalmente se envolver com coisas que não as façam  pensar muito (querem o lazer simples e despreocupado);  2) muitas vezes buscam algo que possa trazer retorno financeiro e não vêem na astronomia algo com esta possibilidade (principalmente no Brasil);  3) com tanta poluição luminosa em nossas cidades é praticamente impossível se observar o Céu. (isso só ocorre quando viajamos para cidades distantes das grandes metrópoles).

E é neste terceiro ponto que gostaríamos de nos ater. Heidegger menciona o “esquecimento do Ser” através do tempo no mundo ocidental,  como já comentamos anteriormente.  Mas gostaria de evidenciar: nós esquecemos o Ser, porque nos ocupamos demais com tantas e tantas atividades provindas da técnica; nós esquecemos o cosmos, o universo, o Céu porque desenvolvemos uma técnica que da mesma forma e paradoxalmente que nos aprofundou nos confins do universo, “desenvolve” no planeta e na atmosfera da Terra, tanta e tanta poluição de todos os níveis que não nos permitem  “ver” a noite,  aqui destacamos a poluição  luminosa.

Nós “somos morcegos” que erroneamente iluminamos o nosso Céu e assim na verdade o “apagamos”, o ofuscamos.  Nós precisávamos do Céu para nossa “busca noturna” mas com tanta luz perdemos esta possibilidade e com isso veio a “fome” e o esquecimento do cosmos, nossa origem.

Como supomos hoje através dos “conhecimentos” de astronomia, foi através de mortes e ressurgimentos de algumas estrelas: “poeiras” que formam estrelas que ao morrer tornam-se novamente poeiras “encontrando-se” com outras  que com elementos químicos cada vez mais complexos formam novas estrelas.  Portanto o nosso Sol e todo o sistema solar assim fora formado. Em outras palavras nós somos “poeira das estrelas”, e assim não há dúvidas que nossa origem é cósmica, nós viemos deste vasto, imenso, infinito ou finito universo, que tem aproximadamente 13,7 bilhões de anos desde o chamado Big Bang.  E da mesma forma que é espantoso, que é um verdadeiro thauma relatar mitos da criação através das diversas religiões,  é da mesma maneira um verdadeiro espanto os relatos da nova cosmologia, conforme diz Dennis Overbye[1] citado por Brockelman:

O que poderia aproximar mais do caráter de mito do que a noção de que o universo de fato apareceu, talvez do nada; de que os átomos em nossos ossos e sangue foram formados em estrelas a anos-luz de distância e bilhões de anos atrás; ou de que as partículas ainda mais antigas de que são compostos esses átomos são fósseis de energias e forças que existiram durante o primeiro microssegundo da criação, as quais mal podemos compreender? Somos todos artefatos do universo, lembranças andantes do mistério último. Somos poeiras andantes, poeiras de estrelas andantes. (2001, p.93).

Mas o nosso questionamento é: se nós nos esquecemos do sentido do Ser, será que nos preocuparemos com esta nossa origem? Kant citado por Châtelet,diz

Duas coisas enchem o coração de admiração e veneração, sempre novas e sempre crescentes, à medida que a reflexão se dirige e se consagra a elas: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim (…) o primeiro espetáculo,  de uma inumerável multidão de  mundos, aniquila, por assim dizer a minha importância, por ser eu uma criatura animal que deve voltar à matéria de que é formado o planeta (um simples ponto no Universo) depois de (não se sabe como) ter sido dotada de força vital durante curto espaço de tempo. O segundo espetáculo ao contrário eleva infinitamente o meu valor, como o de uma inteligência por minha personalidade, na qual a lei moral me manifesta uma vida independente da animalidade e até mesmo de todo o mundo sensível. (1994, p.102).

Este deslumbramento já ocorre há tempos imemoriáveis. Poderíamos citar os diversos povos do oriente que se fascinavam  muito com o cosmos: os chineses, babilônios, assírios e egípcios; e também povos aqui das Américas como: os   Maias, os Incas e mesmo nossos índios e outros povos chamados “primitivos”; que já se preocupavam e se ocupavam com a observação do Céu, mas vieram os nossos dias e novas ocupações surgiram, a técnica faz com que possamos nos aprofundar no mais distante do cosmos e ao mesmo tempo, faz o povo esquecer deste Céu…

 

Certamente Galileu Galilei[2], entre outros astrônomos da chamada modernidade, tinha uma visão de “fenômeno” bem diferente das que têm os estudiosos da Nova Astronomia na contemporaneidade, como é o caso dos estudos da física quântica e seus desdobramentos teóricos, ainda tão embrionários, mas inimagináveis naquela época. Entretanto  poderíamos considerar Galileu como aquele que por primeiro toma a iniciativa de observar os fenômenos do cosmos com “outros olhos” em dois sentidos: 1) não eram mais nus, pois se utilizava de um instrumento, uma luneta, para observar o Céu; 2) se utilizava da matemática nos seus estudos experimentais da natureza (elaborando algumas leis entre elas a lei da queda livre dos corpos).

Com o advento da física quântica a ideia de fenômeno, no que se refere à cosmologia muda substancialmente, o sentido de “existência” também; da mesma maneira as “certezas” de outrora agora com o “principio da incerteza” de Heisenberg[3] modificam nosso pensamento quanto à questão da existência, como diz Andreeta:

Sabemos que tudo o que existe no nosso universo (e também nós mesmos) é constituído de minúsculas partículas de matéria e de energia, e que forças naturais atuam sobre essas partículas, aglomerando-as para formar tudo o que existe. Porém, hoje não existe mais distinção entre matéria e energia. Segundo Einstein, matéria e energia são dois estados diferentes de uma mesma “substancia quântica universal”. Os conhecimentos científicos atuais parecem, portanto, convergir com os da filosofia antiga, que afirmam que tudo o que existe deve provir de uma única fonte. (2004, p.9).

 

Na verdade muitos fenômenos parecem inexplicáveis para o homem, contudo e de qualquer forma, este ser que é capaz de perguntar sobre o Ser,  ainda que nunca tenha as respostas, deve continuar na busca, aliás isto é uma das características deste homem, um constante desbravador, um constante questionador, um ser em  thauma por natureza, como também o é a própria natureza,  o cosmos,  o universo.

Agora o senso comum não tem mais o mesmo valor, a “necessidade” de especializações nas diversas áreas, faz com que um indivíduo ou pequenos grupos, tome para si “conhecimentos” que antes não eram tão segmentados e podiam ser compartilhados com um grupo muito maior de pessoas. Hoje o conhecimento mais do que nunca é estreitado e especializado (um generalista sabe um pouco de tudo, um especialista sabe um muito de pouco) e assim ocorre com a humanidade, mas essa “massa” toma “conhecimento” e utiliza-se das novas descobertas sem mesmo imaginar como elas chegaram àquele ponto, e toda essa tecnologia contribui para impulsionar o esquecimento do “ser”; assim o espanto passa a estar nos diversos fetiches, “brinquedos”, mimos que são criados para nos encantar.

O homem da contemporaneidade atribuído de tantas tarefas e rotinas, não percebe de imediato as novas revoluções no pensamento que ocorrem com Einstein e a física quântica, ou melhor, percebem mas não sabem de onde vem. Nem mesmo nós que estudamos as relações da Astronomia e da Filosofia podemos imaginar o que de fato ocorrerá com o pensamento nos próximos séculos depois de re-começarmos a entender que “tudo faz parte de um Todo” e,  continuando com as palavras de Andreeta:

Vistos no plano atômico, todos os corpos que constituem o universo do ser humano possuem um comportamento dinâmico de troca de partículas. Os átomos que estão agregados aos corpos não são permanentes. Eles fluem constantemente através dos corpos sólidos: a pedra e o corpo físico humano compartilham os mesmos átomos. (…) Como os átomos fluem constantemente de um corpo para  outro, a separação entre os corpos é, portanto, ilusória. Mesmo que o ser humano queira, não pode se isolar dela e de nada. (2004, p.20).

 

Não podemos nos afastar do thauma originário, do espanto que faz com que estejamos aqui, o Poder de Ser. Precisamos voltar às origens, precisamos voltar a ser crianças,  precisamos  re-des-cobrir a epifania manifesta no mundo, na vida!  Nas palavras de Brockelman:

O que se reclama, então é uma nova maneira de ver as coisas que possa nos ajudar a viver de forma mais apropriada na natureza; na inesquecível expressão de Emily Dickinson,  trata-se de ver as coisas com “um olho desguarnecido”. Precisamos nos deslumbrar com o extraordinário milagre da vida, com a espantosa epifania que ela manifesta. Precisamos ser tocados e transformados em nosso âmago.

Talvez nossa cultura industrial moderna esteja passando por essa transformação em seu modo de ver as coisas, e talvez uma mudança de paradigma esteja permitindo ver a natureza e a vida com novos olhos. (2001, p.25).

 

Essa mudança de paradigma, sem precedentes  é sem duvida a física quântica e toda a nova revolução que ela vem causar ao pensamento. Então teremos mais uma vez a Astronomia ou Física colaborando na maneira de pensar; e dessa vez esperamos que proporcione com este novo Thauma um retorno ao sentido do Ser e a um relembrar do Céu.

No próximo tópico > Referências Bibliográficas e Bibliografia

Abraços do Benito Pepe

Notas:


[1] OVERBYE, Dennis. Lonely Hearts of  the Cosmos. Nova York: Harper Collins, 1991, p.3.

[2] Galileu Galilei (1564-1642) é conhecido como um dos pais da física moderna.

[3] O princípio da incerteza de Heisenberg consiste num enunciado da mecânica quântica, formulado inicialmente em 1927,  impondo restrições à precisão com que se podem efetuar medidas simultâneas de uma classe de pares de observáveis. Por exemplo: não  se pode saber ao mesmo tempo a posição e a velocidade de um elétron.

 

Benito Pepe

Benito Pepe: Empresário há mais de 30 anos, Administrador, Filósofo, Astrônomo Amador, Colunista, Palestrante, Instrutor e Professor Universitário. Tem formação acadêmica na área de Administração com pós-graduações em: Administração estratégica de empresas; Marketing; Filosofia Contemporânea; e Filosofia Antiga. Publica Aqui, seus textos sobre Filosofia, Astronomia, Administração, Marketing, Religião, Assuntos da Atualidade, além de um Papo geral.

10 comentários em “O esquecimento de nossa origem Cósmica

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    Os nossos criadores inseriram no nosso subconsciente a nossa origem cósmica, e divina. Seria uma forma de nos poder-mos identificar com o absoluto. Daí o começo das religiões. Ao longo dos tempos entidades cósmicas negativas, têm aportado a esta dimensão do espaço, e sempre procuraram contrariar esse principio divino. Daí, a constante batalha, entre o bem e o mal. O nosso criador original não criou, seres perfeitos. os criou simples e ignorantes. mas os dotou de capacidades para evoluirem por sí mesmos. Á medida que este ser humano, evolui, mais se vai dando conta que sua origem provem das estrelas. A sua estadia temporária neste planeta apenas faz parte do seu curso evolutivo.

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    Olá Nelson Cravo, obrigado pelo comentário. Fica aí teu depoimento para reflexão e os comentários ficam abertos, de qualquer maneira acho que, da maneira como você colocou, está um pouco dogmática. No entanto é algo para se refletir.

    Abraço do Benito Pepe

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    Gostei muito do texto. Realmente um abridor de cabeças.
    Penso muito nas diferentes consciências de que somos compostos e que nos rodeiam. Consciências que se estabelecem por natureza, como o sono profundo, o sonho e o despertar, e outras que se conquista arduamente, como a realização de ideais, o propor-se a fazer pelo menos uma parte do que se decidiu, ou até mesmo a realização completa das decisões. E tento imaginar: como se tornam naturais as consciências? E será que estamos preparando uma situação cósmica em que realizar ideais passará a ser como é hoje o estar desperto?

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    Olá Claudio Bertalot, obrigado pelo comentário, reflexões e pelos questionamentos! Ficarão aqui para novas reflexões e possíveis comentários que possam complementa-los. Valeu!

    Abraços, Benito Pepe

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    Olá meu caro Benito, outro dia vi na internet que a Holanda estava aceitando voluntários para o desbravamento do planeta Marte, só que é uma viagem somente de ida, isto é, não tem volta. Fiquei pensando se isto não aconteceu com a Terra. Será que nós os terrestres não somos também extraterrestres? Certa vez eu li algo sobre este assunto, e me chamou atenção o fato de que, há milhões de anos, seres extraterrestres cientistas, habitantes de Órion, muito evoluídos tecnologicamente, vieram à Terra para pesquisar os minerais, os vegetais e os animais. Na época destas pesquisas, encontraram aqui um tipo de primata que tinha uma certa semelhança com o ser humano atual, mas sem a inteligência e a coordenação motora necessária para uma rápida evolução. Esses seres começaram a modificar o DNA desse primata, para que a sua caixa craniana ficasse maior, os seus membros e a coluna ficassem mais harmônicos. Com o aumento do crânio deste ser primitivo, os “greys” puderam aumentar também o cérebro e a capacidade cerebral/intelectual deles e, conseqüentemente, a capacidade de raciocínio. Eu fico imaginando, se realmente em alguma época o planeta Marte foi habitado e toda uma civilização foi destruída e reduzida à poeira cósmica. É grande o mistério que envolve a nossa origem, as religiões afirmam que fomos formados de barro. Se Deus fez o primeiro homem de barro, aquelas milhões de partículas usada em nossa criação, com certeza era poeira cósmica vinda de alguma parte do universo, o que confirma com absoluta clarividência a nossa origem cósmica. A grande verdade é tudo nasce e se cria para a morte, ou seja voltar a sua origem de poeira cósmica. Sabemos que só existe uma força Divina que comanda todo este complexo universal é eterna, o nosso Deus, O grande arquiteto do universo, o resto tudo passa e nada ficará. Um abraço do amigo J.M.Dias

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    Olá JM Dias, obrigado pelo comentário e reflexão deixados neste texto! Acho que teu pensamento está em um bom sentido… Este é um assunto que não tenho conclusões, mas somente questionamentos…

    Abraços, Benito Pepe

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    Sou teísta,creio que o criador se manifestou para a humanidade na pessoa de JESUS CRISTO,para assim dessa forma poder conectar-se a sua criatura e também tornar possível a nós mortais ter acesso a ser ser DIVINO e aprendermos diretamente com ele sobre a nossa origem,sobre qual é a sua vontade para conosco e também revelar-nos o nosso destino e consequentemente o destino de tudo o que existe!Isso tudo que expus acima não me impede de forma alguma de vislumbrar o cosmos dessa perspectiva que vem sendo apresentada nos ultímos anos de conhecimento cientifico,apenas vem corroborar a necessidade da existencia de uma vontade consciente,antes mesmo do próprio big bang.Então pensemos as escrituras nos dizem que DEUS é espírito e por ser espírito não necessita de um princípio dentro dos moldes da cosmologia,ele é um mistério,assim como tantos outros limiares o são…

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    Olá Delavi Barcelos, interessantes teu raciocínio! Obrigado pelo comentário!

    Abraços, Benito Pepe

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